Casar faz bem para a longevidade? Ter um relacionamento amoroso ajuda a viver mais? A resposta é "depende". A ciência vem encontrando evidências de que amar faz muito sentido para quem quer uma vida mais feliz. É preciso, porém, que o amor venha acompanhado de relações saudáveis. Se a relação for ruim e causar estresse, pode ter efeito contrário. Portanto, casar tem tudo para ser uma ótima forma de ter anos mais felizes ou não, dependendo de vários fatores.
Estudos mostram que pessoas que mantêm vínculos afetivos e sociais de qualidade tendem a apresentar melhor saúde física, emocional e cognitiva. E o que realmente faz diferença é a qualidade dos relacionamentos construídos ao longo da vida, podendo ser um casamento ou uma boa amizade.
Imagem: Oneinchpunch/shutterstock
Estudo acompanhou mulheres por 20 anos
Uma das pesquisas mais recentes sobre o tema foi conduzida por cientistas australianos e acompanhou mais de 7 mil mulheres entre 45 e 50 anos durante duas décadas. Nenhuma delas apresentava doenças crônicas no início do estudo.
Ao longo de 20 anos, os pesquisadores avaliaram periodicamente a satisfação dessas mulheres com seus relacionamentos. Isso incluiu parceiros, familiares e amigos. Essas informações foram comparadas com o surgimento de doenças crônicas.
O resultado chamou atenção: mulheres que relataram menor satisfação com seus relacionamentos tiveram maior risco de desenvolver doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, asma, osteoporose, depressão e ansiedade.
Segundo os pesquisadores, o efeito foi observado independentemente do tipo de relacionamento. Ou seja, o benefício não estava ligado apenas ao casamento, mas à existência de conexões afetivas positivas e satisfatórias. Por isso, casar faz bem se o relacionamento for de qualidade. Mas outras relações podem ser tão boas quanto.
O estudo foi publicado na revista científica General Psychiatry e é considerado um dos primeiros a analisar a relação entre a qualidade dos vínculos sociais e o desenvolvimento de doenças crônicas.
Casar faz bem? Só se for em boa companhia
Os resultados reforçam uma ideia que vem ganhando força entre especialistas: mais importante do que o relacionamento em si é a qualidade dele. O estudo destaca que pessoas casadas ou em relacionamentos estáveis costumam apresentar menor risco de doenças cardiovasculares, depressão e isolamento social. No entanto, esses benefícios aparecem principalmente quando existe apoio mútuo, confiança, respeito e parceria. O oposto é verdadeiro. Relações marcadas por conflitos constantes, violência ou estresse podem produzir justamente o efeito contrário.
Amor também é um fator de saúde na maturidade
Para a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), ainda existe um preconceito que trata a vida afetiva das pessoas idosas como um tabu. A entidade defende que o afeto, a sexualidade e os relacionamentos continuam sendo importantes em qualquer fase da vida e fazem parte de um envelhecimento saudável.
Outra constatação importante é que com o aumento da expectativa de vida, é cada vez mais comum que pessoas encontrem um novo companheiro ou companheira após os 50, 60 ou até 70 anos. Nessa fase da vida é possível investir em relações baseadas em maturidade, companheirismo e liberdade de escolha.
Depois dos 50, o amor costuma ser diferente
A psicóloga Cristiane Felipe explica que os relacionamentos na maturidade tendem a ser menos guiados por expectativas idealizadas e mais voltados ao bem-estar. "Depois dos 50 anos, as pessoas costumam conhecer melhor seus limites, seus desejos e já não têm mais paciência para jogos emocionais. O que elas procuram é uma conexão genuína, parceria e tranquilidade."
Segundo ela, essa fase costuma favorecer relações mais autênticas. "O foco passa a ser o bem-estar e a felicidade. O amor deixa de ser uma obrigação social e passa a ser uma escolha."
Ela ressalta que a bagagem adquirida ao longo da vida - como divórcios, lutos ou famílias recompostas - traz desafios, mas também contribui para relações mais maduras.
"O amor depois dos 50 pode ser mais leve, mais livre e mais verdadeiro. A maturidade ajuda na comunicação, no respeito aos limites e na construção de uma parceria", avalia.
O segredo pode estar na rede de apoio
Embora o casamento seja frequentemente associado à longevidade, especialistas destacam que o fator protetor não é a certidão de casamento. É, sim, a existência de uma boa rede de apoio.
Amigos, familiares, vizinhos, grupos sociais e parceiros afetivos ajudam a reduzir o estresse, oferecem suporte emocional em momentos difíceis, estimulam hábitos saudáveis e diminuem o isolamento. Tratam-se dos fatores reconhecidamente importantes para a saúde física e mental.
Por isso, pessoas solteiras, divorciadas ou viúvas também podem envelhecer com qualidade quando cultivam relações positivas e significativas.
No fim das contas, a ciência aponta um caminho que vai além da pergunta "Casar faz bem?". Ela indica que viver cercado por relações saudáveis pode ser tão importante para a saúde quanto praticar atividade física, alimentar-se bem e não fumar. Cuidar dos vínculos, portanto, também é uma forma de cuidar da própria longevidade.
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