A longevidade muitas vezes traz desafios relacionados à saúde. Um deles é a questão da demência, condição que atinge quatro de cada cinco idosos, mesmo sem diagnóstico médico formal, segundo a Unifesp. Entre os sintomas recorrentes estariam agitação, confusão mental, irritabilidade e ansiedade que, quando recorrentes e mais intensos no fim da tarde ou durante a noite, também podem estar relacionados à síndrome do entardecer.

Também conhecida como síndrome do pôr do sol ou sundowning, a condição é caracterizada pelo agravamento de sintomas comportamentais e cognitivos em determinados períodos do dia. Embora esteja frequentemente associada à doença de Alzheimer, a síndrome do entardecer também pode ocorrer em pessoas com outros tipos de demência, como vascular, frontotemporal e por corpos de Lewy.

Segundo o médico de família e paliativista Dr. Gustavo Bruno Gonçalves, da Palliative Care, o fenômeno costuma surgir principalmente nas fases moderadas e avançadas da demência.

“O paciente pode apresentar aumento importante da confusão, irritabilidade, agitação e alterações do sono nesse período do dia. Muitas vezes, a família acredita que houve uma piora definitiva do quadro, quando, na verdade, existe um padrão comportamental relacionado ao entardecer e ao período noturno”, explica.

Por isso, reconhecer os sinais e compreender os fatores que desencadeiam ou intensificam os episódios é fundamental para proporcionar mais conforto e segurança à pessoa com demência.

Sindrome do entardecer pode causar distúrbios do sonoImagem: Klefer Pix/Shutterstock

Quais são os principais sintomas da síndrome do entardecer?

Os sinais da síndrome do entardecer variam de pessoa para pessoa, tanto em intensidade quanto em frequência. Em geral, surgem ou se tornam mais evidentes no final da tarde e podem persistir durante a noite. Entre os sintomas mais comuns estão:

  • Confusão mental: dificuldade maior para reconhecer pessoas, lugares ou compreender o que está acontecendo ao redor.

  • Agitação e inquietação: necessidade de caminhar repetidamente, dificuldade para permanecer sentado ou comportamento mais agitado que o habitual.

  • Irritabilidade e ansiedade: mudanças de humor, nervosismo e sensação de insegurança.

  • Desorientação: dificuldade para identificar onde está ou compreender o horário e a rotina.

  • Alterações do sono: dificuldade para adormecer, despertares frequentes ou inversão do ciclo de sono e vigília.

  • Comportamentos repetitivos: repetição de perguntas, falas ou movimentos.

É importante observar se esses comportamentos seguem um padrão ao longo dos dias. A identificação dos horários e das circunstâncias em que ocorrem pode ajudar os profissionais de saúde a compreender o quadro e orientar os cuidados.

O que pode desencadear a síndrome do entardecer?

As causas exatas da síndrome do entardecer ainda não são totalmente compreendidas. Uma das explicações envolve alterações no relógio biológico, responsável por regular os ciclos de sono e vigília, que podem ocorrer em pessoas com demência.

A diminuição da luminosidade no fim do dia, associada ao cansaço acumulado e às dificuldades de processamento das informações do ambiente, também pode contribuir para o aumento da desorientação.

Além disso, algumas situações podem intensificar os sintomas, como dor, infecções, constipação intestinal, desidratação, ambientes escuros, excesso de estímulos e mudanças na rotina.

O Dr. Gustavo Bruno Gonçalves alerta que esses fatores nem sempre são facilmente identificados, já que pessoas com comprometimento cognitivo podem ter dificuldade para comunicar o que estão sentindo. “Uma infecção urinária, dor ou noites mal dormidas podem aumentar muito a desorganização cerebral e desencadear crises de agitação”, afirma.

Por esse motivo, nem toda mudança de comportamento deve ser atribuída automaticamente à demência ou à síndrome do entardecer. É necessário investigar possíveis problemas de saúde e situações que estejam provocando desconforto.

Como lidar com a síndrome do entardecer no dia a dia?

Embora não exista uma solução única para evitar os episódios, algumas medidas podem ajudar a reduzir sua frequência ou intensidade e proporcionar mais tranquilidade ao paciente.

Entre as principais recomendações estão:

  1. Mantenha uma rotina organizada. Estabelecer horários regulares para refeições, atividades e sono ajuda a criar uma sensação de previsibilidade e segurança.

  2. Estimule a exposição à luz natural. Sempre que possível, incentive atividades durante o dia, especialmente pela manhã. Isso ajuda na regulação do relógio biológico.

  3. Evite cochilos prolongados. Dormir excessivamente durante o dia pode prejudicar o sono noturno e contribuir para a desorganização dos horários.

  4. Cuide da iluminação da casa. Acenda as luzes antes que o ambiente fique muito escuro. Uma iluminação adequada pode reduzir sombras e situações que provoquem medo ou desorientação.

  5. Reduza os estímulos no fim do dia. Barulhos intensos, televisão em volume elevado, muitas pessoas conversando ao mesmo tempo e atividades agitadas podem aumentar a ansiedade.

  6. Observe possíveis desconfortos físicos. Dor, fome, sede, necessidade de ir ao banheiro e outras situações podem estar por trás de mudanças de comportamento.

  7. Ofereça acolhimento e tranquilidade. Falar com calma, evitar discussões e transmitir segurança pode ajudar a diminuir a agitação durante os episódios.

Essas estratégias devem ser adaptadas às necessidades e às condições de saúde de cada pessoa. A orientação profissional é importante para identificar quais medidas funcionam melhor em cada situação.

Síndrome do entardecer também afeta familiares e cuidadores

Os efeitos da síndrome do entardecer não se limitam às pessoas com demência. Para quem acompanha o paciente diariamente, os episódios podem representar um desafio significativo, especialmente quando envolvem noites mal dormidas, agitação intensa e necessidade constante de supervisão.

Privação de sono, exaustão física, ansiedade e sensação de impotência estão entre as dificuldades enfrentadas por familiares e cuidadores.

A diretora da Palliative Care, a fisioterapeuta Daniele Chaves, destaca que oferecer orientação e acolhimento à família é parte fundamental do tratamento.

“Quando a família entende o que está acontecendo e recebe orientação adequada, consegue lidar melhor com as crises e oferecer mais segurança ao paciente. O suporte multiprofissional ajuda não apenas no controle dos sintomas, mas também na preservação da qualidade de vida de todos os envolvidos”, ressalta.

Nesse contexto, compartilhar responsabilidades, organizar uma rede de apoio e buscar acompanhamento especializado são atitudes importantes para evitar a sobrecarga de quem cuida.


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