“Você quer conversar?” A pergunta é simples, mas o mais difícil talvez venha depois: conseguir realmente ouvir a resposta. E manter uma escuta ativa.
Quando alguém próximo está passando por um momento difícil, é comum surgir a vontade de ajudar oferecendo soluções, contando uma experiência parecida ou tentando mostrar que as coisas vão melhorar. Tudo isso pode partir de uma boa intenção. Mas, em algumas situações, o que a pessoa mais precisa naquele momento é encontrar alguém disposto a escutá-la. E acolher não necessariamente é fornecer soluções.
A escuta ativa é uma maneira de ouvir com atenção, presença e interesse genuíno pelo que o outro está dizendo, evitando julgamentos e a pressa de oferecer respostas.
Isso não transforma familiares e amigos em profissionais de saúde mental. Também não significa que uma boa conversa seja suficiente diante de todo tipo de sofrimento. Mas, para quem deseja e pode ajudar, aprender a ouvir pode fazer diferença na forma como se acolhe alguém. E pode ajudar, inclusive, a perceber quando é necessário buscar apoio especializado.
Imagem: Hryshchyshen Serhii/Shutterstock
Escuta ativa é mais do que ficar em silêncio
Ouvir alguém parece uma tarefa simples. Na prática, nem sempre é. Enquanto o outro fala, podemos estar pensando no que responder, tentando encontrar uma solução ou relacionando aquilo que ouvimos às nossas próprias experiências. Em outros momentos, na tentativa de tranquilizar, podemos minimizar o que a pessoa sente.
Para a psicóloga Rita Aventurato, a atenção genuína pode ser uma importante forma de acolhimento. “Às vezes basta um olhar atento e a escuta ativa para que a pessoa se sinta acolhida”, afirma.
Isso passa também por reservar espaço para a conversa. Rita recomenda “dedicar um tempo sem criticar para ouvir” e procurar estar verdadeiramente presente naquele momento.
A proposta da escuta ativa, portanto, não é simplesmente permanecer calado enquanto o outro fala. É demonstrar, por meio da atenção, das perguntas e da própria postura, que aquela pessoa tem espaço para se expressar.
Ouvir sem tentar consertar imediatamente
Talvez um dos maiores desafios de quem quer ajudar seja resistir à necessidade de encontrar uma solução. O psicólogo Filipe Colombini explica que oferecer apoio começa por “estar disponível e escutar sem transformar imediatamente a conversa em conselho, bronca ou tentativa de convencer a pessoa a ‘pensar positivo’”.
Isso porque frases ditas com a intenção de animar podem produzir o efeito contrário quando desconsideram aquilo que a pessoa está vivendo.
Em vez de tentar oferecer uma resposta pronta, Colombini sugere fazer perguntas. Perguntar o que aconteceu, como a pessoa está se sentindo, há quanto tempo se sente daquela maneira e de que tipo de ajuda precisa são formas de abrir espaço para que ela fale sobre sua experiência.
Há uma mudança importante nessa postura: em vez de decidir antecipadamente o que o outro precisa, nós perguntamos. E ouvir a resposta também significa aceitar que talvez não tenhamos uma solução.
A escuta também pode ser um desafio
É importante, também, estar consciente de que a escuta ativa pode ser desafiadora. A psicóloga Raysa Lima, especialista na temática da prevenção do suicídio, alerta que, antes de tentar ajudar alguém em sofrimento psíquico, é preciso se perceber.
Ela destaca que o conteúdo da conversa pode trazer assuntos sensíveis, como experiências traumáticas, relatos de sofrimento psíquico intenso, autolesão e pensamentos de morte.
"Quem se dispõe a escutar precisa, antes, refletir sobre suas condições de conversar sobre esses temas e sobre seu próprio estado psíquico para sustentar essa escuta naquele momento", alerta.
Para Raysa Lima, essa é uma etapa fundamental antes mesmo de iniciar o diálogo, pois essa consciência contribui para que a conversa não seja interrompida caso esses assuntos surjam. Além disso, preserva a saúde mental de quem se dispõe a ajudar.
Como praticar a escuta ativa?
Não é necessário ser psicólogo para melhorar a maneira como ouvimos as pessoas próximas. Algumas atitudes podem ajudar:
- Escolha um momento em que possa prestar atenção. Se possível, evite dividir a atenção com celular, televisão ou outras tarefas.
- Deixe a pessoa concluir o raciocínio. Nem todo silêncio precisa ser preenchido imediatamente.
- Faça perguntas abertas. “Como você está se sentindo?” ou “O que aconteceu?” dão mais espaço para a pessoa falar do que perguntas que permitem apenas “sim” ou “não”.
- Não insista em fazer a pessoa falar. Ofereça a sua companhia. Diga que está tudo bem se ela não quiser falar, pois, ainda assim, você estará ao lado dela.
- Pergunte como pode ajudar. Nem sempre aquilo que imaginamos ser necessário corresponde ao que o outro precisa.
- Evite transformar a conversa em comparação. A experiência de outra pessoa não diminui aquilo que alguém está vivendo.
- Cuidado com conselhos rápidos. Antes de oferecer soluções, pergunte se a pessoa gostaria apenas de ser ouvida ou se gostaria de ajuda para encontrar uma solução. Antes de tentar solucionar, procure compreender a situação.
- Não tente fazer a pessoa a enxergar o lado positivo. Uma pessoa que pede ajuda por ter uma perna machucada, não precisa ser lembrada de que a sua outra perna está saudável. Do mesmo modo, quem está em sofrimento psíquico, precisa de ajuda para cuidar daquilo que dói e não de lembretes sobre aquilo que não dói.
- Saiba reconhecer seus limites. Escutar e apoiar são importantes, mas algumas situações exigem ajuda profissional.
O que podemos aprender com as avós do Zimbábue
Uma experiência que ganhou projeção internacional mostra como presença e escuta podem fazer parte de uma rede de cuidado. Em 2006, diante da escassez de profissionais especializados em saúde mental no Zimbábue, o psiquiatra Dixon Chibanda começou a treinar mulheres mais velhas —, muitas delas avós, — para oferecer apoio a pessoas da comunidade.
A iniciativa ficaria conhecida como Friendship Bench, ou “Banco da Amizade”. As avós não foram transformadas em psiquiatras ou psicólogas. Elas receberam treinamento para desenvolver habilidades como escutar, acolher, demonstrar empatia e ajudar as pessoas a identificar possíveis caminhos para os problemas que enfrentavam.
Os encontros aconteciam em bancos instalados nas comunidades. E a simplicidade da cena talvez seja uma das partes mais marcantes da história: duas pessoas sentadas lado a lado, conversando.
O projeto mostrou o valor que elementos aparentemente básicos: tempo, presença e uma escuta atenta, sem julgamentos, podem ter quando fazem parte de uma estratégia estruturada de cuidado.
A experiência também chama atenção para algo que muitas vezes esquecemos: pessoas mais velhas não precisam ocupar apenas o lugar de quem recebe cuidados. Experiência de vida, capacidade de acolhimento e vínculos com a comunidade também podem fazer delas importantes agentes de apoio.
Quando as palavras não dizem tudo
A escuta também envolve perceber aquilo que aparece de outras maneiras. Esse cuidado pode ser especialmente importante ao conviver com pessoas mais velhas.
Segundo a psicóloga especialista em gerontologia Cristiane Felipe, mudanças relevantes nem sempre são expressas diretamente em frases como “não estou bem”. Elas podem aparecer por meio de queixas físicas, irritabilidade, retraimento ou perda de interesse por atividades que antes faziam parte da rotina.
Por isso, ouvir também é observar mudanças e criar oportunidades para conversar. Em vez de concluir antecipadamente o que está acontecendo, uma aproximação cuidadosa pode começar com uma pergunta simples sobre como aquela pessoa está se sentindo. O objetivo não é fazer diagnósticos. É perceber que algo mudou e mostrar disponibilidade para ouvir.
O que evitar ao conversar com alguém que está sofrendo
Tão importante quanto saber o que fazer é prestar atenção àquilo que pode fechar as portas para uma conversa. Julgar, criticar, minimizar ou transformar o sofrimento em uma disputa sobre “quem passou por coisa pior” tende a dificultar o acolhimento.
Também é preciso cuidado com respostas automáticas como: “Você precisa pensar positivo.” “Isso vai passar.” Ou “Tem gente em situação muito pior.”
Mesmo quando são ditas para ajudar, essas frases podem transmitir a ideia de que aquilo que a pessoa sente não deveria estar sendo sentido. Uma alternativa é reconhecer a dificuldade sem fingir que sabemos exatamente o que o outro está vivendo: “Imagino que esteja sendo difícil. Quer me contar mais?”
A diferença está em não encerrar a conversa. Estamos abrindo espaço para ela.
Escutar não significa assumir toda a responsabilidade
Existe ainda um limite fundamental na escuta ativa: quem oferece apoio não precisa e, muitas vezes, não consegue resolver sozinho o sofrimento de outra pessoa. Familiares e amigos podem estar presentes, acolher, ajudar na busca por atendimento e permanecer próximos. Mas não devem assumir o papel de profissionais de saúde.
Quando o sofrimento é intenso, persiste ou interfere significativamente na vida da pessoa, é importante incentivar a procura por atendimento especializado.
Em situações de risco imediato, a prioridade deixa de ser apenas conversar e passa a ser buscar ajuda de emergência. Esse ponto é especialmente importante porque serviços de apoio emocional também têm funções diferentes dos serviços de urgência. Como ressalta Cris Felipe, em uma situação de risco iminente, o CVV não substitui o SAMU ou outro serviço de emergência.
Podemos aprender a ouvir melhor
Talvez uma das maiores lições da escuta ativa seja aceitar que apoiar alguém nem sempre exige encontrar as palavras perfeitas. Às vezes, a contribuição mais importante é oferecer algo muito mais simples: atenção.
As avós do Zimbábue mostram a força que tempo, presença e escuta podem adquirir quando fazem parte de uma rede estruturada de cuidado. Rita Aventurato lembra que um olhar atento pode fazer alguém se sentir acolhido. Filipe Colombini reforça que ouvir não precisa terminar imediatamente em conselho. E Cris Felipe chama atenção para a importância de perceber mudanças que nem sempre são verbalizadas.
Ser um ouvinte melhor é algo que pode ser aprendido. Significa interromper menos. Perguntar mais. Julgar menos. Prestar atenção às respostas. Aceitar alguns silêncios. E compreender que, em determinados momentos, a melhor forma de ajudar não é dizer ao outro o que fazer, mas estar ao lado dele enquanto encontra o caminho para buscar o cuidado de que precisa.
Onde buscar ajuda
Quando o sofrimento psicológico é intenso ou persistente, é importante buscar atendimento adequado. Confira onde encontrar ajuda:
- Mapa da saúde mental - Encontre locais de atendimento gratuito em saúde mental em diferentes regiões do Brasil. http://mapasaudemental.com.br
- Mapa do acolhimento - Serviço de apoio para mulheres que estão passando por situações de violência. Oferece apoio psicológico e jurídico. http://mapadoacolhimento.org
- CAPS - Centro de atenção psicossocial - Serviço público de saúde mental do SUS. Oferece acolhimento, acompanhamento e cuidado para pessoas em sofrimento psíquico, inclusive em situações de crise. Procure o CAPS de referência da sua região.
- PA/Pronto-socorro psiquiátrico - Serviço de urgência especializado em saúde mental para situações de crise que precisam de avaliação e atendimento presencial imediato.
- UPA 24h - Unidade de Pronto Atendimento do SUS disponível 24 horas para situações de urgência e emergência. Em uma situação de crise, procure a UPA mais próxima.
- SAMU-192 - Em situações de emergência ou quando houver risco imediato à integridade física, ligue 192.
- Corpo de bombeiros - 193 - Em situações de emergência que exijam intervenção imediata para garantir a segurança da pessoa, ligue 193.
- CVV-188 - O CVV oferece apoio emocional e escuta por meio de voluntários, 24 horas por dia, pelo telefone 188.
O CVV não é um serviço de emergência. Em situações de risco imediato, procure um serviço de emergência ou ligue 192. - Espaço Amarelo - Clínica especializada em prevenção do suicídio e portal de informações sobre saúde mental, com atendimento psicológico, orientação familiar, direcionamento e supervisão para profissionais. Atendimento em português e inglês. Instagram: @espaco_amarelo | WhatsApp: (71) 9 9996-9191
Aqui, você não está só é a mensagem central da campanha de Setembro Amarelo do Instituto de Longevidade MAG, que reúne cartilha de acolhimento, consultas psicológicas gratuitas e um webinar especializado para falar sobre saúde mental, cuidado e prevenção ao suicídio. Participe!
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