Viver até os 120 anos em um país que envelhece a olhos vistos - e em números oficiais - pode ser uma realidade em algumas décadas? Para o empreendedor Luiz Paulo Fogetti, autor do livro Homo Longevus, lançado neste ano de 2026, a resposta é sim. Na obra, que tem como subtítulo "o guia de longo prazo para o século 22", são abordados diferentes cenários considerando essa nova expectativa de vida. O autor acompanhou o tema da longevidade em diversos países e se debruçou sobre muitas pesquisas e estudos. E o que será que pode mudar? 

Primeiramente, a necessidade de trocar a mentalidade de "conserto" para "manutenção preventiva" quando se trata de saúde. No livro Homo Longevus, o autor explica que ultrapassar os 100 anos exigirá que a própria medicina não seja mais reativa. Ela terá que ser preditiva. Ou seja, haverá, por exemplo, intervenções aos 30 para que a falha aos 70 nunca ocorra.

Além disso, três questões seriam inegociáveis para quem quer ultrapassar o primeiro século de vida: a musculação deixa de ser estética e se torna mecanismo de sobrevivência; o sono passa a ser visto como regenerativo; e passa-se a considerar o uso estratégico de saunas e banhos gelados para acelerar o metabolismo. 

"O objetivo é que aos 100 anos você ainda consiga amarrar os próprios sapatos e viajar sozinho. A prevenção custa 10% do que custa uma UTI. O indivíduo centenário permanece produtivo e consumindo, em vez de ser um custo para o Estado", diz Fogetti.

Livro Homo Longevus trata de relacionamentos em uma vida mais longevaImagem: Lightfield Studios/Shutterstock

No campo dos relacionamentos, livro Homo Longevus prevê o amor em múltiplos atos

Outra área a ser repensada para uma vida que ultrapassa o primeiro século é o amor. Quando se trata de relacionamentos, será mais difícil ficar com uma única pessoa por 90 anos ou mais? 

O autor acredita que contratos terão que ser renegociados e que a mutação do "eu" será o maior obstáculo para a manutenção de um único parceiro. Afinal, se as pessoas mudam muito em 10 anos, o que dirá em 120? 

"O segredo da permanência não será encontrar alguém que nos complete hoje, mas que esteja disposto a renegociar o contrato a cada década. Para ficar com a mesma pessoa, você terá que se apaixonar por várias versões dela", reflete. 

Já nos relacionamentos familiares, o cenário deve ser, segundo Foggetti, de famílias com até cinco gerações convivendo juntas. 

"O conceito de ninho vazio pode deixar de existir. Em uma vida de 120 anos, o ninho sempre está sendo reocupado: o filho sai aos 25, volta aos 45 após um divórcio, sai novamente aos 55 para uma nova carreira, e talvez o neto se mude para cuidar dos avós aos 70", diz ele no livro Homo Longevus.

E o mercado de trabalho?

Se hoje já se fala muito em contratações 50+ nas empresas, o que pode acontecer em um cenário onde pessoas vivem mais de um século de maneira ativa e saudável? Neste novo mundo, o trabalho deve ter diferentes ciclos. Ou seja, os indivíduos tendem a ter 4 ou 5 carreiras completamente diferentes ao longo da vida. 

Além disso, a universidade deixará de ser algo a ser feita unicamente na juventude. E o conceito de life long learning ganhará cada vez mais força. 

"A educação contínua prevalecerá. As instituições de ensino terão "assinaturas vitalícias". O aprendizado será constante para evitar a obsolescência causada pela IA e pela automação. Estima-se que, em 2080, 40% dos estudantes universitários terão mais de 60 anos, buscando requalificação para a terceira ou quarta carreira", diz Foggetti.

Outro ponto interessante mencionado pelo autor: o preconceito contra a idade morrerá por necessidade econômica, já que 30% do mercado ativo de trabalho terá mais de 65 anos.

Desafios financeiros e um modelo de autossuficiência assistida

A questão financeira, algo que já preocupa no cenário atual, também ganhará cada vez mais atenção. O autor afirma que o planejamento deixará de ser apenas sobre "acumular para parar". Passará a ser sobre "gerir fluxo para continuar". 

Ele acredita que, para entender 2045, será necessário encarar a ferida aberta da previdência atual, baseada em um modelo que já não se sustenta. 

Foggetti também entende que a sustentabilidade econômica na superlongevidade será baseada em quatro pilares principais: um portfólio de carreiras com múltiplas potencialidades; a monetização da experiência e dos dados dos longevos; o fim da aposentadoria como "renda fixa"; e o consumo consciente e colaborativo. 

Ele explica também que ser mais experiente pode ser uma vantagem no mundo de inteligência artificial. "O famoso repertório, a existência na confecção de prompts e a interação com diversas camadas de informação podem ajudar na construção ou solução de problemas de IA". 

Vida social, espiritualidade e o mundo da morte também são temas tratados no livro Homo Longevus

Outros cenários tendem a ser explorados diante de uma expectativa de vida de 120 anos. No livro Homo Longevus, o autor trata sobre a vida social e a necessidade de se combater o isolamento e o tédio. "Segundo Aristóteles ou Harvard, o segredo da felicidade está baseado no convívio e na qualidade das pessoas ao nosso redor. Nesse sentido, as amizades serão (já são) os melhores remédios para uma vida sem solidão", afirma Foggetti. O autor também destaca a necessidade do ser humano aprender a ser repetidamente iniciante em algo novo.

No campo da espiritualidade, o autor acredita que o desafio da igreja seria pregar não apenas a "boa morte", mas a "santidade da constância". O desafio de ser fiel por 30 anos, segundo Foggetti, seria muito menos profundo do que ser fiel por um século. "As religiões tradicionais precisarão revisar seus conceitos de "sofrimento purificador" e "destino". 

Finalmente, um dos capítulos mais "sombrios e complexos" do livro, segundo o próprio autor, é o da indústria da morte. Afinal, viver por 120 anos traz à tona reflexões sobre temas polêmicos como eutanásia e suicídio assistido. Quem vive além dos 100 passará a ter direito de decidir sobre a própria vida em algum momento?

"Em uma sociedade de centenários, o "direito de partir" torna-se tão debatido quanto o "direito de viver", reflete Foggetti.

E você, o que pensa sobre tudo isso?


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