O envelhecimento da população brasileira tem revelado uma cena cada vez mais comum dentro das casas: idosos que precisam cuidar dos pais ainda mais velhos. A tarefa de cuidar dos pais em idade avançada envolve amor, responsabilidade e, muitas vezes, um desgaste físico e emocional silencioso.

É o que viveu Maria Valquíria, hoje na faixa dos 60 anos. Ela dedicou oito anos aos cuidados da mãe, que faleceu aos 92. Nos quatro últimos anos, a mãe esteve acamada, alimentando-se por sonda e dependente de oxigênio.

“Foi um processo muito cansativo. Minha mãe era uma idosa idosa doce, boazinha, não reclamava de nada, mas os cuidados com ela foram muito difíceis porque eram cuidados constantes", lembra.

Valquíria começou a cuidar da mãe quando ainda estava na casa dos 50. Na fase inicial, os cuidados envolviam medicação, apoio para caminhar e ajuda no banheiro. Com o agravamento do quadro, a rotina se tornou integral. “Eu acordava às seis e vinte da manhã e ia até onze, onze e meia da noite. Muitas vezes ficava sem dormir ou dormia aos picados. É como o sono de uma mãe com bebê recém-nascido porque quando você tem uma pessoa doente, você fica o tempo todo em alerta. Era muito desgastante, física e emocionalmente", conta.

Cuidar dos pais idosos requer um olhar para o autocuidado tambémImagem: Irina Vanilevskaia/Shutterstock

O peso invisível de cuidar dos pais idosos

Especialistas que acompanham o atendimento domiciliar observam que o impacto do cuidado familiar vai além da rotina prática. O desgaste emocional tende a se intensificar nos momentos de decisão: quando surgem dúvidas sobre limites, escolhas terapêuticas e até sobre a necessidade de buscar ajuda profissional.

Segundo a fisioterapeuta Daniele Chaves, diretora da Palliative Care, o cuidado em casa permite compreender melhor a dinâmica familiar. “Quem assume a rotina diária de cuidar dos pais idosos também pode adoecer se não receber orientação e acolhimento”, afirma. Ela lembra que os cuidados paliativos não se restringem ao fim da vida, mas começam no diagnóstico, oferecendo suporte físico, emocional e até espiritual ao paciente e à família.

Em muitos casos, sinais como alterações de humor, confusão mental ou perda de mobilidade são percebidos mais rapidamente no ambiente doméstico, o que pode evitar internações desnecessárias. Ainda assim, o impacto sobre quem cuida permanece significativo.

Culpa, cansaço e a dificuldade de delegar

A empresária Maria Regina Ferramola de Salvo viveu situação semelhante à de Valquíria ao acompanhar a mãe de 95 anos. No início, a idosa ainda era ativa. Com o tempo, vieram as dificuldades para caminhar e realizar atividades básicas.

“As noites começaram a ficar difíceis, com agitação e alucinações. Eu já não dormia e isso começou a comprometer meu trabalho”, relata. A decisão de contratar ajuda noturna foi marcada por conflitos internos. “Senti culpa, como se estivesse terceirizando meu papel de filha", diz.

Esse sentimento é frequente entre quem precisa cuidar dos pais. Existe um tabu em torno da presença de cuidadores profissionais, como se delegar parte das tarefas significasse abandono. “Se você está bem resolvido, não está negligenciando. Pelo contrário, isso dá mais fôlego para estar presente nos momentos importantes”, avalia Maria Regina.

Quem cuida também precisa de cuidado

Valquíria conta que, depois de um tempo, também passou a contar com a ajuda de cuidadoras. "Muitas vezes elas ficavam com a minha mãe para eu poder dormir na casa do meu irmão ou ir ao cinema com uma amiga, porque eu estava esgotada, tanto físico como emocional", afirma. Ela reconhece que, durante anos, colocou a própria saúde em segundo plano. “A gente esquece de cuidar da gente. Primeiro cuida dos filhos, depois vai cuidar dos pais. Vai se deixando de lado".

O resultado apareceu depois. Hoje, ela trata problemas no quadril e nos joelhos. “Quem cuida também precisa de cuidado”, diz, repetindo uma frase que passou a fazer sentido na própria pele.

Daniele Chaves, da Palliative Care observa que, com famílias menores e maior longevidade, o cuidado tende a se concentrar em poucas pessoas, muitas vezes mulheres acima dos 50 ou 60 anos. “O suporte técnico precisa vir acompanhado de atenção ao aspecto emocional, porque quem sustenta a rotina diária também é impactado". 

Uma questão social

O desafio de cuidar dos pais em idade avançada deixou de ser apenas uma questão íntima e familiar. Tornou-se um tema social. À medida que a população envelhece, cresce o número de filhos idosos que assumem essa responsabilidade.

A experiência de Valquíria revela uma realidade comum e pouco discutida: o amor que sustenta o cuidado não elimina o cansaço. Pelo contrário, muitas vezes o torna silencioso. “Minha mãe mereceu ser cuidada com todo carinho. Mas a gente precisa pensar em cuidar da gente também”, reflete.

Entre a dedicação e o limite, entre o dever e a exaustão, milhares de brasileiros seguem vivendo esse ciclo. E talvez o primeiro passo seja reconhecer que cuidar dos pais exige também aprender a pedir ajuda.


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