Celulares, computadores, tablets e outros dispositivos fazem parte da rotina de milhões de pessoas. Com o aumento do tempo diante das telas, também cresceram as dúvidas sobre os possíveis efeitos da chamada luz azul e sobre a necessidade de usar óculos com filtro de luz azul.
A ideia de que essas lentes protegeriam os olhos contra os efeitos das telas é bastante difundida. Mas o que mostram as evidências científicas?
Uma revisão sistemática publicada pela Cochrane em 2023 reuniu 17 ensaios clínicos randomizados. Esses ensaios observaram se lentes de óculos com filtro de luz azul poderiam melhorar o desempenho visual, reduzir o cansaço dos olhos, favorecer o sono ou proteger a mácula em adultos. Os estudos envolveram entre cinco e 156 participantes e tiveram acompanhamento que variou de menos de um dia a cinco semanas.
A conclusão foi que, com as evidências disponíveis, as lentes com filtro de luz azul provavelmente têm pouco ou nenhum efeito sobre vários desses resultados.
Imagem: Hananello-Studio/Shutterstock
Filtro de luz azul reduz o cansaço visual?
Reduzir o cansaço visual é um dos principais argumentos usados na divulgação dessas lentes. No entanto, a revisão da Cochrane também não encontrou evidências de que elas reduzam de maneira relevante os sintomas em comparação com lentes sem o filtro.
Os pesquisadores observaram que pode haver pouca ou nenhuma diferença nos índices subjetivos de fadiga visual em acompanhamentos de curto prazo. Também não foi identificada diferença clinicamente relevante em uma medida objetiva de fadiga visual chamada frequência crítica de fusão. A certeza dessas evidências, porém, foi considerada baixa para alguns desses resultados.
Isso não significa que uma pessoa não possa perceber alguma diferença ao usar determinado tipo de lente. Uma percepção individual de conforto, entretanto, não é suficiente para afirmar que o filtro protege os olhos. Ou, ainda, que evita doenças no longo prazo.
As lentes protegem a retina ou a mácula?
Outra promessa associada ao filtro de luz azul é a proteção da retina contra possíveis danos provocados pela exposição à luz de telas.
A revisão da Cochrane, porém, não encontrou ensaios clínicos randomizados que permitissem determinar se essas lentes protegem a saúde macular. Também não foi possível avaliar adequadamente seus efeitos sobre outros desfechos. Ou seja, sensibilidade ao contraste, discriminação de cores e desconforto provocado por brilho. Por isso, não é possível afirmar, com base nessa revisão, que o uso de lentes com filtro de luz azul previna doenças da retina ou da mácula.
O oftalmologista Dr. Rodrigo Carvalho, da clínica Alpha Oftalmologia Avançada, chama atenção justamente para a diferença entre uma hipótese estudada em laboratório e um benefício comprovado para quem utiliza telas no dia a dia.
Segundo ele, parte das preocupações relacionadas à luz azul surgiu de experimentos realizados em condições de exposição diferentes daquelas encontradas na rotina. Isso significa que não podem ser totalmente consideradas para o dia a dia.
E a luz azul das telas?
A luz azul faz parte da luz visível e está naturalmente presente na luz solar. Ou seja, a principal fonte de exposição. Ela também é emitida por celulares, computadores, tablets, televisores e lâmpadas de LED.
De acordo com o especialista, a intensidade da luz emitida por esses dispositivos é muito inferior àquela recebida durante atividades ao ar livre. Por isso, ele afirma que o debate sobre a luz azul pode acabar desviando a atenção de problemas mais diretamente relacionados ao uso prolongado das telas. Entre eles, cansaço visual e ressecamento dos olhos.
"Hoje sabemos que o maior impacto do uso excessivo de telas está relacionado ao cansaço visual, ao ressecamento dos olhos e às alterações do sono quando usamos dispositivos próximo ao horário de dormir. Nas crianças, o maior problema é o aumento da miopia associado ao excesso de atividades de perto e à pouca exposição à luz natural", afirma o Dr. Carvalho.
Filtro de luz azul melhora o sono?
A relação entre luz azul e sono é um pouco mais complexa. A revisão da Cochrane encontrou resultados inconsistentes. Foram analisados seis ensaios com um total de 148 participantes. Nestss ensaios, foi avaliada a qualidade do sono. Três estudos apontaram alguma melhora com as lentes que filtravam a luz azul. Outros três não encontraram diferença em relação às lentes sem filtro.
Por causa da quantidade reduzida de participantes, das diferenças entre os grupos estudados e da falta de dados quantitativos suficientes, os pesquisadores consideraram incerto se as lentes com filtro de luz azul são equivalentes ou superiores às lentes convencionais para melhorar o sono. Portanto, não há base suficiente para afirmar que colocar lentes com filtro de luz azul seja uma estratégia comprovada para dormir melhor.
O problema pode estar no uso excessivo das telas
Se o filtro de luz azul não demonstrou benefícios claros, isso não significa que o uso prolongado de telas seja irrelevante para a saúde ocular.
Segundo o Dr. Rodrigo Carvalho, quando uma pessoa permanece muito tempo concentrada em uma tela, a frequência das piscadas diminui. Isso favorece a evaporação da lágrima e pode provocar sintomas como:
- olhos secos;
- ardência;
- vermelhidão;
- visão temporariamente embaçada;
- dor de cabeça;
- sensação de peso ou cansaço nos olhos.
Além disso, manter o olhar continuamente direcionado para objetos próximos exige esforço constante da musculatura ocular.
Como reduzir o desconforto ao usar telas
Alguns cuidados simples podem ajudar a diminuir os sintomas associados ao uso prolongado de dispositivos eletrônicos. Uma das recomendações citadas pelo oftalmologista é a regra 20-20-20. Ou seja, a cada 20 minutos de atividade próxima, fazer uma pausa de 20 segundos e olhar para um objeto situado a aproximadamente seis metros de distância.
Também é importante lembrar de piscar conscientemente, manter uma boa iluminação no ambiente, ajustar ergonomicamente o local de trabalho e utilizar a correção adequada dos óculos quando ela for necessária.
Essas medidas, segundo o especialista, têm mais respaldo para lidar com o desconforto provocado pelo uso prolongado das telas do que o uso rotineiro de lentes com filtro de luz azul.
"A tecnologia faz parte da nossa rotina e não precisa ser encarada como inimiga. A mensagem mais importante é utilizá-la com equilíbrio. Adotar hábitos saudáveis e manter consultas oftalmológicas periódicas também é essencial. É isso que realmente contribui para preservar a saúde ocular", conclui o médico.
Quando procurar um oftalmologista?
O desconforto visual relacionado ao uso de telas costuma melhorar com descanso. Mas alguns sintomas não devem ser atribuídos automaticamente ao excesso de celular ou computador.
Queda da visão, dor ocular intensa, visão dupla, flashes luminosos, aumento importante de moscas volantes, vermelhidão persistente e dores de cabeça frequentes associadas ao esforço visual são sinais que merecem avaliação médica, segundo o especialista.
Afinal, vale a pena usar filtro de luz azul?
A revisão da Cochrane não encontrou evidências suficientes para sustentar benefícios clínicos importantes das lentes com filtro de luz azul sobre o cansaço visual, a acuidade visual ou a saúde macular. Em relação ao sono, os resultados foram inconsistentes e não permitem uma conclusão definitiva.
Isso também não significa que essas lentes sejam necessariamente prejudiciais. Ou, ainda, que uma pessoa não possa preferi-las por uma questão de conforto. O ponto é que, até o momento da revisão, não havia evidências científicas consistentes para tratá-las como uma proteção obrigatória contra os efeitos das telas.
Para cuidar da visão, portanto, vale mais a pena prestar atenção ao conjunto de hábitos. O recomendável é fazer pausas durante atividades prolongadas, piscar e manter uma iluminação adequada. Além disso, vale passar algum tempo ao ar livre e realizar acompanhamento oftalmológico quando indicado.
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