O medo do futuro aparece com frequência entre os jovens e isso reflete em um presente instável. Clima, economia, guerras e novas tecnologias alimentam a sensação de que o amanhã será pior do que o hoje. Estudos recentes mostram que esse sentimento não é presente apenas Brasil mas também é comum em outros países.
Um estudo publicado em 2021 na revista The Lancet Planetary Health ouviu crianças e jovens de dez países, entre eles o Brasil. Para 75% dos participantes, o futuro era assustador, principalmente por causa das mudanças climáticas.
Um levantamento do Centro de Estudos SoU_Ciência, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com o Instituto Ideia, trouxe um dado semelhante. Jovens de 18 a 27 anos apontaram a falta de perspectiva de futuro como um de seus principais problemas.
A organização Teach the Future também investigou o tema. O estudo ouviu 689 jovens de 18 a 28 anos, de todas as regiões do País. A palavra "ansiedade" foi citada por 78,5% deles ao falar do amanhã. Já 62% se identificaram com a frase "Sinto medo do que pode acontecer comigo no futuro".
A pesquisa recebeu o nome de "Da Futurofobia à Futurotopia". O trabalho define a futurofobia como o "sentimento crescente de que o que está por vir tende a ser pior do que o que temos hoje". Os pesquisadores ressaltam que não se trata de uma doença. O caso é uma resposta emocional esperada diante de um cenário instável.
Medo do futuro e de um amanhã que assusta
Para a psicóloga Tássia de Almeida, doutora em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de São Paulo (USP), os motivos são concretos. "O jovem que projeta o amanhã depara-se com uma catástrofe climática cientificamente comprovada", afirmou em entrevista ao Estadão.
A lista inclui conflitos geopolíticos, a experiência recente de uma pandemia e a polarização do debate público. Entra nela também o avanço da inteligência artificial. "Diante disso, exigir que a juventude seja otimista em relação ao futuro é exigir um descompromisso com a realidade", disse a psicóloga.
A estabilidade financeira foi a principal preocupação para 79% dos entrevistados da Teach the Future. Entre os jovens desempregados, 64,9% relataram medo elevado. Segundo Tássia, "a estabilidade é hoje o objetivo mais difícil de alcançar em um mercado de trabalho hiperflexível e que estimula a rotatividade constante".
A angústia, porém, começa antes da entrada no mercado. A cobrança por ser bem-sucedido pode remontar à preparação para o vestibular. "Os jovens estão imersos em uma cultura de estímulo permanente ao sucesso, onde alcançar uma meta significa apenas passar para a próxima", pontuou Tássia. Nesse cenário, a exigência sobe o tempo todo e o futuro se torna um espaço instável.
Esse processo também leva alguns jovens a deixar de fazer planos. A psicóloga explica que, quando a pessoa não dá conta de tudo, a situação é lida como falha pessoal. Muitos adotam, então, uma postura defensiva.
A psiquiatra Sara Bottino, do Serviço de Saúde do Corpo Discente da Unifesp, descreveu o efeito disso na autoimagem. "Quando o jovem não atinge as metas irreais que lhe foram impostas, ele internaliza a culpa, concluindo que não possui valor ou competência suficiente", pontuou também ao Estadão.
Redes sociais e comparação com a vida irreal
As plataformas digitais também entram na equação. Marcelo Afonso Ribeiro, professor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da USP, observa que elas espalham informações fragmentadas. Em vez de visões amplas e contextualizadas, o jovem recebe pedaços de realidade.
Influenciadores se tornam referências de autoridade ao apresentar narrativas de sucesso como verdades. "Essas figuras contribuem para a desinformação, discursos apocalípticos de incerteza e a ideia de que tudo é transitório e acelerado", afirmou Ribeiro.
Há ainda a superexposição de vidas artificiais. Segundo Sara, essa curadoria estética cria a ilusão de que o mundo ideal é feito só de beleza, prazer e êxito. Para a psiquiatra, a imersão nessa realidade é "extremamente nociva" a quem já está psicologicamente vulnerável.
Crédito: Hector Pertuz/Shutterstock
Medo do futuro e o papel da família
O contexto familiar pesa na forma como o jovem lida com o medo do futuro. "A família, em geral, ainda habita o século XX e os jovens tentam viver o século XXI", afirmou Ribeiro.
Em famílias bem-sucedidas, o jovem pode sentir a necessidade de igualar ou superar o patamar dos pais. Em alguns casos, ele rejeita o patrimônio familiar para provar o próprio valor. Em contextos de vulnerabilidade, o apoio pode vir com uma sensação de dívida moral. O jovem sente a "obrigação" de ter sucesso para garantir o sustento dos pais na velhice.
Também há pais que enfrentaram barreiras na carreira e projetam nos filhos a realização dos próprios sonhos. Os especialistas lembram que a pressão é maior entre mulheres cobradas por "constituir família" enquanto constroem a carreira. Jovens LGBTQIA+ com trajetórias marcadas por conflitos ligados à orientação sexual também enfrentam mais pressão.
Além disso, os efeitos sobre a saúde mental são importantes. "Indivíduos submetidos de forma prolongada a ambientes instáveis manifestam níveis de estresse mais elevados, o que eleva drasticamente a probabilidade de adoecimento psíquico", afirmou Sara.
Por outro lado, a família pode ser um espaço de acolhimento. Isso depende de abertura ao diálogo e de compreensão das dúvidas que cercam a juventude.
Esperança diante do futuro
O medo é o sentimento mais associado ao amanhã, mas não é o único. Na pesquisa da Teach the Future, 62,6% dos entrevistados ligaram o futuro à esperança. Além disso, 66,1% disseram que trabalhar com o que gostam poderia garantir um futuro positivo.
Ressignificar o trabalho pode ajudar a construir outra ideia de sucesso e lidar com o medo do futuro. Nesse sentido, é preciso apoiar os jovens na criação de projetos próprios e possíveis, sem depender de modelos prontos das redes sociais. Ribeiro defende que a juventude seja ouvida e participe dos processos que dizem respeito a ela.
Sara recomenda ações de autocuidado, em especial a prática de atividade física. Segundo a psiquiatra, o exercício ajuda a reduzir sintomas ansiosos e a lidar com os desafios do presente e do futuro.
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