A insegurança financeira não é dificuldade apenas de quem está no vermelho. Pesquisas recentes mostram que milhões de brasileiros com renda estável também vivem sob pressão constante. Isso acontece não por falta de dinheiro, mas por falta de previsão. Essa questão está no centro de um problema que afeta a saúde mental, os relacionamentos e a qualidade de vida de grande parte da população.

O problema não é (só) a dívida

Dados da pesquisa realizada pela Anbima, em 2025, em parceria com o Datafolha mostram que 47% dos brasileiros têm estresse financeiro alto. Outros 48% convivem com estresse financeiro médio. Isso significa dizer que apenas 5% da população relata baixo estresse com a vida financeira.

O levantamento também revela que a preocupação com dinheiro atrapalha o sono de 37% dos entrevistados. Além disso, questões financeiras são motivo de discórdia em 29% dos lares.

Uma pesquisa da Serasa com o Instituto Opinion Box reforça o cenário. Realizada em 2025, o levantamento mostra que 84% dos brasileiros já tiveram a saúde mental afetada por problemas financeiros.

Os impactos aparecem no humor e na estabilidade emocional (48%), na autoestima (44%), na energia e na disposição (32%) e na concentração no trabalho ou nos estudos (30%). Além disso, 70% já perderam o sono preocupados com dívidas.

Para o educador financeiro Fellipe Filomeno, o diagnóstico vai além do endividamento. A insegurança financeira, na sua visão, tem uma causa mais frequente e menos debatida: a ausência de planejamento sobre gastos que já fazem parte da rotina.

"Na minha experiência, é mais comum encontrar pessoas que têm renda, mas vivem em estado de ansiedade por não saber exatamente o que vem pela frente. Muitas vezes, elas ganham o suficiente para o próprio padrão de vida, mas esse padrão foi crescendo sem planejamento, sem controle e sem uma relação mais consciente com o uso do dinheiro."

Imprevisto ou falta de previsão?

Filomeno faz uma distinção importante entre dois tipos de surpresa financeira. De um lado, os imprevistos reais, como uma doença, uma demissão, uma emergência familiar. De outro, despesas que se repetem todo ano, mas que muitas pessoas não incluem no planejamento, como IPVA, IPTU, material escolar, férias e manutenção do carro.

"A pessoa coloca no orçamento a conta de luz, água, condomínio, feira e outras despesas mensais, mas esquece que o IPVA também vai chegar, que o material escolar também vai chegar, que as férias dos filhos também vão chegar. Então, muitas vezes, a ansiedade não nasce apenas da falta de dinheiro, mas da falta de previsão sobre gastos que já fazem parte da vida", diz o especialista.

A questão que ele propõe às pessoas é direta: 

  • O que está acontecendo comigo é realmente um imprevisto ou é algo previsível que eu deixei para olhar depois?

Quando a insegurança financeira compromete as decisões

A falta de organização não apenas gera ansiedade. Ela também prejudica a capacidade de tomar boas decisões. Filomeno aponta que, sem clareza sobre quanto se ganha e quanto já está comprometido, qualquer nova escolha financeira se torna uma aposta no escuro.

"Um ponto importante é que o dinheiro ficou cada vez mais abstrato. Hoje, muitas vezes, a pessoa não pega mais no dinheiro. Ela paga no cartão, faz Pix, parcela, usa limite, contrata crédito pelo celular. Isso facilita a vida, mas também pode diminuir a percepção do gasto. Quando a pessoa percebe, tomou várias decisões pequenas que, juntas, criaram um problema grande."

O educador também observa que a insegurança financeira contamina os relacionamentos. Em muitos lares, um cônjuge não conhece o peso financeiro que o outro carrega. As conversas sobre dinheiro não acontecem, e as decisões passam a ser tomadas de forma isolada e reativa.

"Costumo dizer que dinheiro não fala. Em um relacionamento, é mais fácil brigar por algo visível. Mas o dinheiro, muitas vezes, fica escondido, diluído no cartão, no aplicativo do banco, nas parcelas e nas expectativas que não foram conversadas."

Esse cenário tem consequências sociais mensuráveis. A pesquisa da Serasa aponta que 41% dos brasileiros evitam conversas sobre dinheiro e 29% se isolam de amigos e familiares por causa de dificuldades financeiras. Outras 65% afirmam se esforçar para esconder suas dificuldades de outras pessoas.

Homem maduro sério usando óculos sentado na mesa escritório em casa gerenciar orçamento ao sofrer com insegurança financeira, mesmo tendo renda. Crédito: Inside Creative House/Shutterstock

Para quem tem renda variável, a insegurança financeira exige estratégia própria

Autônomos, freelancers e pequenos empreendedores enfrentam a insegurança financeira de forma ainda mais intensa. Para esse grupo, a variação de renda é estrutural e o risco de organizar a vida com base na média pode ser alto.

"Um erro comum é olhar para a média anual da renda e montar o padrão de vida em cima dela. A média pode enganar. Uma pessoa pode ganhar bem em alguns meses e muito pouco em outros. Se ela organiza a vida pela média, mas enfrenta três ou quatro meses abaixo dela, pode acabar usando crédito para sustentar um padrão que não cabe nos meses fracos", diz Fellipe.

A recomendação de Filomeno para quem vive de renda variável é organizar o padrão de vida com base na menor renda recorrente. Ele também recomenda usar os meses melhores para reforçar o caixa e dar previsibilidade aos períodos mais fracos. Além disso, Fellipe destaca a importância de separar as finanças pessoais das profissionais. É importante, ainda, definir um valor fixo de retirada mensal, como um pró-labore.

O que realmente reduz a insegurança financeira

Antes de falar em reserva de emergência ou orçamento, Filomeno defende que o passo mais eficaz é o diagnóstico. A pessoa precisa conhecer sua própria realidade financeira antes de aplicar qualquer fórmula.

"O primeiro ponto é olhar para a renda líquida, não para a renda bruta. É o dinheiro que realmente entra na conta que sustenta a vida da pessoa. Depois, é preciso mapear os gastos essenciais, como moradia, alimentação, transporte, saúde, educação e compromissos já assumidos."

Segundo ele, existe uma dose mínima de previsibilidade que já alivia significativamente a ansiedade. E ela começa com três perguntas simples:

  • 1ª - Quanto custa o meu próximo mês?
  • 2ª - Quanto da minha renda já está comprometida?
  • 3ª - Quais gastos previsíveis vão aparecer ao longo do ano?

A barreira para alcançar esse equilíbrio, porém, vai além do comportamento individual. A pesquisa da Serasa revela que 49% dos brasileiros já deixaram de buscar ajuda psicológica por não conseguir pagar consultas ou terapias. Esse dado evidencia como a insegurança financeira pode se tornar um obstáculo para o tratamento do próprio problema.

"Pode parecer contraintuitivo, mas um planejamento anual não serve para acertar exatamente tudo que vai acontecer. Preço de energia muda, alimentação muda, renda pode variar, despesas familiares aparecem, prioridades mudam. O papel do planejamento não é controlar o mundo, mas dar uma base para a pessoa ajustar a rota sem entrar em desespero. Quando a pessoa responde a isso, ela deixa de viver apenas reagindo. Ela pode não controlar tudo, mas passa a enxergar o caminho com mais clareza. E essa clareza, por si só, já reduz muito a ansiedade financeira."


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