A ansiedade financeira já não é mais uma experiência isolada no Brasil. Ela tem endereço, faixa etária e um custo silencioso que vai muito além do extrato bancário. Um levantamento da Serasa feito em novembro de 2022 revelou que 61% dos entrevistados viveram ou vivem sensação de "crise e ansiedade" ao pensar nas próprias dívidas.
Outro estudo, mais recente, da mesma empresa mostrou que 84% dos brasileiros relatam que o aperto financeiro prejudica diretamente a saúde mental. Para a geração que hoje tem entre 20 e 30 anos, esse peso é ainda mais presente. Crescer em um mundo digitalmente acelerado, com comparação constante nas redes sociais e sem educação financeira na escola, criou uma geração que sabe o valor do dinheiro, mas ainda tem muito medo de lidar com ele.
O Brasil já é o país mais ansioso do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Dados da instituição apontam que, em 2019, quase 10% da população brasileira (cerca de 18,6 milhões de pessoas) sofria com o problema. Esse número tende a ser ainda maior nas próximas edições da pesquisa, considerando os impactos da pandemia de Covid-19.
Quando se cruza ansiedade com dinheiro, o quadro se torna ainda mais grave. Cerca de 70% dos brasileiros já perderam o sono por causa de dívidas, segundo o levantamento da Serasa. E o silêncio em torno do assunto piora tudo. De acordo com o levantamento, 65% afirmam se esforçar para esconder as próprias dificuldades financeiras.
O que é ansiedade financeira e por que ela vai além das dívidas?
Para parte da população, o fim do mês deixou de ser apenas uma virada no calendário. Prazos vencidos, contas a pagar e prestações para quitar formam a paisagem cotidiana da maioria dos brasileiros . Essa pressão constante tem nome e se chama ansiedade financeira.
Não se trata de uma preocupação pontual com uma conta a resolver, mas de um estado permanente de tensão em torno do dinheiro. A ansiedade financeira afeta o humor, o sono, o corpo e as relações. A mente calcula, o corpo tensiona e o humor oscila. E esse ciclo se repete, mês após mês, para milhões de pessoas.
Um estudo do banco Inter, divulgado em dezembro de 2025 chamado "Acrobacia Financeira", mostra que a estabilidade econômica é, na prática, uma exceção. Menos de 30% dos entrevistados afirmam que a própria vida financeira está "em ordem" ou equilibrada.
Para os demais, a realidade oscila entre viver "no limite", na instabilidade ou no caos absoluto. E quanto maior esse desequilíbrio, mais alto o nível de ansiedade. Para quem está na chamada zona de caos financeiro, o índice chega a 8,6 em uma escala de 10.
O estudo aponta ainda uma desconexão entre a educação financeira tradicional e a realidade das pessoas. Mesmo que 91% dos brasileiros acreditem que precisam saber mais sobre finanças, os modelos disponíveis não resolvem as dores imediatas de quem vive no limite.
Isso porque a educação financeira prega planejamento e visão de longo prazo. Esse fatores variáveis, para quem está apagando incêndios todo mês, são um luxo. O aprendizado financeiro acaba se tornando, na prática, um privilégio de quem já tem a vida minimamente estável. Para os demais, a lógica é outra, mais binária e imediata. Nesse contexto, ou se diminui o custo de vida, ou se aumenta a renda.
Crédito: panadda design/Shutterstock
Olhar (ou não) para o próprio bolso
Para o educador financeiro Fellipe Filomeno, a raiz do problema vai além das planilhas e dos saldos negativos. "Ansiedade financeira é um tema que vai muito além do dinheiro. Na prática, ela costuma falar sobre medo, pressão, comparação, insegurança e até sobre a dificuldade que muitas pessoas têm de encarar a própria realidade", afirma.
Filomeno trabalha com consultoria financeira e observa, de perto, os padrões de comportamento de quem decide finalmente olhar para as próprias finanças. O que ele encontra, quase sempre, surpreende os próprios clientes.
"Quando as pessoas finalmente olham para a própria realidade financeira, costumam se surpreender em dois pontos: o quanto já construíram sem perceber; e o quanto foram negligentes ao longo do caminho."
Segundo ele, aquele hábito de não abrir o aplicativo do banco, não ver o extrato, não fazer as contas não é preguiça. É fuga emocional.
"Muita gente evita olhar o extrato bancário ou organizar as contas porque isso obriga a pessoa a encarar escolhas, excessos, erros e responsabilidades acumuladas. É como colocar um problema embaixo do tapete acreditando que ele vai desaparecer sozinho. Só que, quando não enfrentamos a realidade, normalmente o problema cresce", explica.
Ansiedade financeira também tem rosto de empreendedor
Se para muitos jovens o medo do futuro financeiro está ligado à instabilidade do emprego ou à dificuldade de guardar dinheiro, para quem escolheu empreender essa ansiedade tem uma textura diferente. Ela é mais imediata e mais concreta.
Iris Cadó, proprietária e responsável legal da escola de natação infantil e hidroginástica Aqualoo, conhece bem esse sentimento. "Até hoje eu sinto, mas senti mais medo quando minha empresa cresceu e precisamos aumentar a quantidade de colaboradores. Foi algo necessário para o momento, porém, nos meses de inverno temos uma baixa procura", conta.
A solução que ela encontrou foi criar uma poupança específica para esse período de sazonalidade. Ou seja, uma reserva que garante o pagamento dos colaboradores sem comprometer o fluxo de caixa da empresa. Mas nem sempre foi assim.
O caminho até uma gestão mais consciente exigiu aprendizado, erros e disposição para encarar a realidade. Desde o início como MEI, ela buscou capacitação sobre organização financeira, pesquisou bancos com serviços para pessoa jurídica e estabeleceu uma separação clara entre o dinheiro da empresa e o seu próprio salário.
"Realmente precisava separar os valores que entravam para não ter erro."
Quando perguntada sobre se o medo já chegou perto de paralisá-la, ela não hesita. "Claro, sempre que o inverno é mais rigoroso ou tem uma durabilidade maior, meus clientes pedem trancamento de matrícula para evitar que os filhos fiquem doentes. Perdendo cliente o capital de giro cai bastante", afirma.
O que a mantém em movimento, segundo ela, é algo que vai além das planilhas. Para ela o "sonho de ver o meu crescimento profissional e o crescimento da minha empresa é maior do que o medo que tenho de 'não dar conta'".
Iris, com seus alunos, na Aqualoo. Crédito: acervo pessoal
Millennials e geração Z: gerações vizinhas, ansiedades distintas
A percepção de que sua geração enfrenta desafios financeiros maiores do que as anteriores é algo que Iris, com 30 anos e a experiência de quem já construiu um negócio próprio, confirma com clareza.
"Acredito que minha geração tem medo de se lançar em coisas incertas. Ser empresário na minha área é viver incertezas de que as contas irão fechar ou se a empresa terá lucro no fim do mês", reflete. Para ela, que pertence à geração millennial, marcada pelo esforço de construção em meio à instabilidade, parte do problema tem raiz cultural.
"Percebo que hoje em dia muitos jovens gostam muito do que o dinheiro proporciona, e ser um empreendedor requer passar por sacrifícios para investir mais na empresa e vê-la crescer."
Fellipe Filomeno enxerga essa divisão geracional com nuances. Para ele, os millennials cresceram em uma realidade onde esforço, estabilidade e construção patrimonial eram muito valorizados. Isso porque frequentemente herdando dos pais uma visão de que sacrifício era o caminho para a segurança.
Já a geração Z nasceu em um mundo mais imediato, digital e acelerado. "Existe uma expectativa maior de conforto, rapidez e bem-estar. Muitas vezes, a geração mais nova já inicia a vida tendo acesso a conquistas que vieram do esforço dos pais. E isso não necessariamente é um problema, mas pode gerar uma percepção diferente sobre sacrifício, responsabilidade e construção", analisa.
A pressão das redes sociais entra como combustível nesse cenário. "Essa geração também cresce exposta a comparações constantes, excesso de informação e pressão social intensa. Então, apesar de parecer mais confortável por fora, internamente existe muita ansiedade ligada à ideia de sucesso rápido e validação", completa o educador financeiro.
Da ansiedade financeira à consciência: o caminho começa pela organização básica
Os dados mostram que a ansiedade financeira cobra um preço alto no corpo e nas relações. Segundo a pesquisa da Serasa, 48% dos entrevistados apontaram o humor e a estabilidade emocional como os aspectos mais prejudicados pela falta de dinheiro.
Outros 44% relataram impacto na autoestima, 32% sentiram queda na energia e disposição, e 30% admitiram dificuldades de concentração no trabalho e nos estudos. Um a cada dez brasileiros afirma ainda ter desenvolvido transtornos alimentares em decorrência do desgaste emocional provocado pelo aperto financeiro.
Mas há outro dado que chama atenção. Cerca de 49% dos brasileiros já deixaram de buscar ajuda psicológica por não conseguir pagar consulta ou terapia. A crise financeira se torna, assim, um obstáculo duplo. Tanto provoca o adoecimento mental quanto impede o acesso ao tratamento.
E o isolamento segue junto. Aproximadamente 45% sentem culpa ao pedir dinheiro emprestado, 41% evitam conversas sobre o tema e 29% acabam se afastando de amigos e familiares por conta disso.
Educação financeira é um caminho?
Para Filomeno, a saída não começa pelos investimentos nem pela aposentadoria. Ela deve começar pela honestidade.
"Educação financeira deveria começar pela organização básica. Saber quanto ganha. Quanto gasta. O que possui. Quais são suas prioridades. Em que fase da vida está. E quais responsabilidades realmente consegue sustentar hoje. Parece simples, mas exige maturidade e honestidade consigo mesmo."
A mesma lógica guia Iris no dia a dia. Ela admite ser mais organizada com as finanças da empresa do que com as pessoais. Isso mesmo que tenha um objetivo claro à frente.
"Todo o lucro dos primeiros 3 anos de empresa foi guardado numa conta poupança, após esse tempo minha sócia e eu começamos a receber um pró-labore mínimo como forma de incentivo para trabalharmos mais e continuamos guardando até hoje. A meta é juntar por alguns anos para um dia termos nosso próprio espaço, do nosso jeitinho", conta.
"No fim, acredito que educação financeira não deveria ser construída pelo medo, mas pela consciência. Porque quando alguém entende onde está, quais são seus limites e quais passos consegue dar hoje, passa a construir uma relação mais saudável com dinheiro, futuro e qualidade de vida", diz Filomeno.
Para uma geração que cresceu entre crises, comparações e incertezas, esse talvez seja o recomeço mais difícil. Contudo, é algo extremamente necessário.
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