Algumas mudanças chegam fazendo barulho. Outras vão acontecendo devagarinho, quase sem alarde, mas transformam profundamente a sociedade. Uma delas está acontecendo agora, bem diante dos nossos olhos: o crescimento forte da geração 60+ no Brasil.

Recentemente li um levantamento da Nexus, feito com dados do Tribunal Superior Eleitoral, que me deixou refletindo bastante. Entre 2010 e 2026, o número de eleitores com 60 anos ou mais cresceu 74%, enquanto o eleitorado total cresceu apenas 15%. Passamos de 20,8 milhões para 36,2 milhões de pessoas nessa faixa etária. Hoje, quase 1 em cada 4 votos vem da chamada “geração prateada”.

É impressionante, não é? Não se trata apenas de números eleitorais. É o reflexo de uma sociedade que está envelhecendo — e envelhecendo viva, presente e participativa.

O que mais me tocou foi descobrir que, enquanto a abstenção geral tem se mantido ou até crescido um pouco, entre as pessoas de 60 anos ou mais ela está diminuindo. Ou seja: quanto mais vivemos, mais queremos participar, opinar e influenciar o rumo das coisas. Isso diz muito sobre o senso de dever cívico e o desejo de continuar fazendo diferença que muitos de nós carregamos.

Aqui no Sul e no Sudeste, a presença dessa geração é ainda mais forte — quase o dobro do que se vê no Norte. Isso está mudando o mapa político do país e, principalmente, nos lembra de algo lindo: a longevidade não é só sobre viver mais anos. É sobre viver com propósito, com voz ativa e com capacidade de influenciar o mundo ao nosso redor.

Por trás desses números está uma transformação ainda maior. Em poucas décadas, a parcela de idosos na população brasileira saltou de 7% para 16%. Isso traz desafios importantes para a previdência, a saúde e a economia, sim. Mas também traz uma oportunidade incrível: a de construir uma sociedade que valoriza a experiência, a sabedoria e a vitalidade da maturidade.

Eu acredito que estamos vivendo um momento em que a narrativa precisa mudar. Durante muito tempo, a política e a sociedade olharam quase exclusivamente para o futuro, para os jovens, para o crescimento. Agora, sem abandonar nada disso, estamos aprendendo a equilibrar esse olhar com as necessidades e os desejos de quem já viveu muito e ainda tem tanto a contribuir.

Como alguém que escreve sobre longevidade, vejo nisso uma mensagem de esperança. Envelhecer não significa se tornar invisível ou coadjuvante. Pelo contrário. A geração prateada está mostrando que é possível envelhecer com mais saúde, mais engajamento e mais presença do que nunca.

O grande desafio (e também a grande oportunidade) é este: aprender a ouvir de verdade esse enorme grupo de pessoas. Não só em promessas de campanha, mas no dia a dia — nas políticas públicas, nas empresas, nas famílias e nas comunidades. Compreender suas prioridades, seus medos e, principalmente, seus sonhos.

Porque a democracia, como bem disse o autor do artigo, é o espelho da sociedade. E o nosso espelho está cada vez mais bonito, mais experiente e mais prateado.

E eu, particularmente, acho esse tom de prata lindo.

Um abraço carinhoso e maduro!


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