Cultivar amizades na vida adulta não é apenas algo agradável. Trata-se de uma necessidade importante para a saúde mental e emocional. Entretanto, se fazer amigos parecia algo simples na infância e na adolescência, na vida adulta, a realidade costuma ser bem diferente. O tempo encurta, as responsabilidades aumentam e, muitas vezes, a solidão aparece mesmo quando a rotina está cheia.
Mas, em um momento em que cresce o número de pessoas relatando sensação de isolamento emocional, especialistas alertam: fazer amizades na vida adulta é essencial.
Segundo o psicólogo Filipe Colombini, o próprio funcionamento da vida adulta dificulta a construção de vínculos. “O adulto carrega uma história emocional muito mais extensa. Frustrações, perdas, relações difíceis e experiências acumuladas tornam o processo de confiar, se abrir e construir intimidade muito mais complexo”, explica.
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Por que fazer amizades na vida adulta parece mais difícil?
Na infância e na adolescência, existe uma estrutura social que favorece encontros frequentes. Escola, cursos, esportes e atividades coletivas criam oportunidades constantes de convivência. Já na vida adulta, os encontros passam a depender de agenda, disponibilidade emocional e energia.
Além disso, o trabalho costuma ocupar grande parte do cotidiano. “O tempo, o cansaço e a pressão acabam reduzindo muito os espaços de convivência genuína”, afirma Colombini.
Outro fator importante é que, com o passar dos anos, as pessoas se tornam mais seletivas emocionalmente. Segundo o psicólogo, muitos adultos passam a avaliar com mais cautela onde investem energia afetiva. Existe menos espontaneidade e mais proteção emocional.
Ainda assim, isso não significa que amizades adultas sejam menos valiosas. Pelo contrário. “Embora sejam mais difíceis de construir, elas costumam ser mais densas, profundas e emocionalmente mais consistentes justamente por conta da maturidade e do repertório de vida”, destaca.
A solidão pode afetar diretamente a saúde mental
A falta de vínculos sociais não impacta apenas o emocional. Ela também pode afetar o funcionamento físico e psicológico como um todo.
Para Colombini, ainda existe um erro comum de separar saúde mental e saúde física como se fossem áreas independentes. “No fim, é tudo saúde. Uma dimensão afeta diretamente a outra o tempo inteiro”, afirma.
O especialista lembra que o ser humano é, essencialmente, um ser social. Relações humanas ajudam na regulação emocional, no senso de pertencimento, na autoestima e até na capacidade de enfrentar estresse e frustrações.
Quando esse contato diminui de forma intensa, podem surgir sinais importantes de isolamento emocional, como:
- irritabilidade constante;
- sensação persistente de desconexão;
- esquiva de relações sociais;
- excesso de autocentramento;
- medo maior de rejeição;
- dificuldade crescente de interagir;
- sensação de inadequação.
Além disso, o isolamento pode gerar um efeito em cadeia. Quanto menos a pessoa convive, mais insegura pode se sentir nas interações sociais. “Ela começa a perder repertório de conexão e qualquer pequena interação pode parecer ameaçadora ou frustrante”, explica.
Solitude não é a mesma coisa que solidão
O psicólogo faz uma distinção importante: gostar de momentos sozinho não significa, necessariamente, sofrer com isolamento. Segundo ele, a solitude pode ser saudável e restauradora. O problema surge quando existe sofrimento emocional ligado à desconexão social.
“Solidão costuma envolver sensação persistente de isolamento emocional e esquiva das relações humanas”, explica.
Por isso, especialistas reforçam que o equilíbrio entre momentos individuais e convivência social é fundamental para a saúde emocional ao longo da vida.
Grupos e interesses em comum ajudam a criar pertencimento
Nos últimos anos, grupos voltados para interesses compartilhados têm ganhado força especialmente entre mulheres. Clubes de leitura, grupos de caminhada, comunidades de networking, encontros presenciais e atividades coletivas têm se tornado caminhos importantes para fazer amizades na vida adulta.
Segundo Colombini, esses espaços funcionam porque recriam oportunidades de convivência que a rotina adulta deixou mais escassas. “Os grupos oferecem algo que a vida adulta vai perdendo aos poucos: espaços de convivência que não giram apenas em torno de cobrança, produtividade ou sobrevivência”, afirma.
Para Luciana Sato, criadora da rede Hestia, que conecta mulheres, a intenção é haver um lugar seguro para trocar dores e inquietações. "As mulheres se conectam, se abrem e percebem que uma funciona para outra como um espelho, porque muitas vezes a gente já passou por outras coisas, e é menos sobre conselho, mais sobre escuta, mais sobre entender a outra com empatia, com amorosidade. Então eu acho que esses grupos vão gerando vínculos que vão além dos papéis que a gente desempenha na sociedade", explica.
Para Colombini, os grupos ajudam a criar pertencimento de forma gradual. A repetição dos encontros, o compartilhamento de interesses e a troca de experiências aproximam pessoas de maneira mais natural. “Muitos vínculos surgem não pela intimidade imediata, mas pela repetição de encontros em torno de algo compartilhado”, explica.
Luciana ressalta que ao criar a rede Héstia pensou em acolhimento. "A minha principal inquietação era porque ou as mulheres são mães, ou elas são filhas, ou elas são executivas, ou líderes. E aí eu queria criar um lugar onde as mulheres tivessem espaço para as questões que não têm espaço", conta.
Existe diferença entre amizades masculinas e femininas?
Segundo Colombini, existem diferenças culturais importantes na forma como homens e mulheres aprendem a construir vínculos ao longo da vida.
De maneira geral, mulheres costumam ser mais incentivadas desde cedo a compartilhar emoções, conversar sobre sentimentos e desenvolver relações baseadas em acolhimento e troca emocional.
Já muitos homens crescem em ambientes que valorizam desempenho, resistência e competição, mas não necessariamente a vulnerabilidade emocional.
“Enquanto muitas mulheres vivem amizades mais ‘frente a frente’, pela troca emocional direta, muitos homens vivem amizades mais ‘lado a lado’, pela atividade compartilhada”, explica.
O psicólogo ressalta, porém, que isso não é uma regra fixa e depende da história individual, da cultura familiar e das experiências de cada pessoa.
Como começar a criar novas amizades na vida adulta?
Para quem sente dificuldade de se conectar, Colombini afirma que o primeiro passo não é tentar performar socialmente ou sair em busca desesperada de novos amigos.“O primeiro passo é conseguir assumir o pedido: ‘eu preciso de vínculo’”, afirma.
Segundo ele, muitas pessoas escondem a solidão atrás do excesso de trabalho, da independência extrema ou de uma rotina aparentemente funcional.
A partir desse reconhecimento, pequenas mudanças podem ajudar:
- participar de grupos de interesse;
- frequentar atividades presenciais;
- retomar hobbies antigos;
- investir em espaços de convivência;
- fortalecer relações já existentes;
- buscar apoio psicológico quando necessário.
O especialista também reforça que criar vínculos leva tempo e exige continuidade. “Sair da solidão não começa com uma performance social. Começa com um pedido honesto de ajuda e com pequenos passos consistentes”, conclui.
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