Os casos de sarampo registrados em São Paulo em 2026 acenderam um alerta para o risco de disseminação da doença em outras regiões do país. O estado confirmou 16 casos neste ano, sendo 13 na capital, dois em São Bernardo do Campo e um em Guarulhos. Diante da existência de uma cadeia de transmissão ativa, o Ministério da Saúde ampliou temporariamente a vacinação nesses três municípios.
A estratégia contempla pessoas de 6 meses a 59 anos, que moram ou circulam por São Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos. A recomendação vale mesmo para quem já recebeu as doses previstas da vacina tríplice viral, que também protege contra caxumba e rubéola.
A vacinação ampliada começou em 3 de agosto e vai até 1º de setembro e não é necessário apresentar comprovante de doses anteriores para receber o imunizante dentro da estratégia.
A medida busca aumentar rapidamente o número de pessoas protegidas e diminuir a quantidade de indivíduos suscetíveis ao vírus. O objetivo é interromper a cadeia de transmissão dos casos de sarampo antes que ela alcance outros grupos e localidades.
Confira as principais dúvidas sobe os casos de sarampo abaixo!
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Por que São Paulo preocupa?
O cenário paulista reúne fatores que podem favorecer a disseminação do sarampo. O estado concentra cerca de 20% da população brasileira, enquanto aproximadamente 10% está na Grande São Paulo.
A região também apresenta alta densidade populacional e intensa circulação diária de pessoas. Além disso, recebe viajantes de diferentes países e concentra importantes pontos de entrada e deslocamento, como o Aeroporto Internacional de Guarulhos, o porto de Santos e o aeroporto de Campinas.
Para Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), essa combinação torna a região especialmente vulnerável à reintrodução do vírus. “Em São Paulo há, sem dúvida, uma zona de muito perigo para a reintrodução do vírus e de mais difícil controle de bloqueio dessas ações”, disse em entrevista ao G1.
Dos casos registrados no estado, parte teve relação com viagens internacionais. Um paciente esteve na Bolívia e outro retornou da Guatemala. Outros casos foram decorrentes da transmissão dentro do próprio estado. Os dois pacientes de São Bernardo do Campo, por exemplo, foram infectados após contato com casos registrados na capital.
São Paulo é atualmente o estado brasileiro com surto ativo de casos de sarampo, caracterizado pela existência de infecções interligados que formam uma cadeia de transmissão.
Casos de sarampo podem chegar a outros estados?
Sim. A existência de uma cadeia ativa em São Paulo aumenta o risco de o vírus ser levado para outras regiões por pessoas infectadas.
No entanto, a possibilidade de o sarampo se estabelecer em determinada cidade não depende apenas do tamanho da população ou da quantidade de viajantes. O principal fator é a existência de pessoas suscetíveis à infecção.
Quando uma pessoa infectada chega a um local com baixa cobertura vacinal, o vírus encontra mais indivíduos que podem adoecer e transmitir a doença. Por isso, cidades grandes e pequenas podem registrar casos de sarampo como um surto.
Em grandes centros, a alta concentração populacional e a intensa circulação de pessoas favorecem a disseminação. Em municípios menores, bolsões de pessoas não vacinadas podem criar condições para que a transmissão continue.
A proteção mais eficiente ocorre quando a cobertura vacinal é alta e homogênea. Isso significa que não basta alcançar bons índices gerais. É preciso evitar concentrações de pessoas não imunizadas em determinados bairros, comunidades ou faixas etárias.
A prevenção depende de dois pontos principais: manter altas coberturas vacinais e identificar rapidamente casos suspeitos. Quando há suspeita de sarampo, é necessário realizar o isolamento do paciente, confirmar o diagnóstico, vacinar pessoas que tiveram contato com o caso quando indicado e acompanhar os contatos para interromper novas transmissões.
Por que tomar outra dose se já recebi duas vacinas?
A recomendação de uma dose adicional não significa que as doses anteriores tenham perdido a eficácia.
A estratégia adotada em São Paulo é uma medida temporária de saúde pública utilizada durante situações de transmissão ativa. A intenção é reduzir rapidamente o número de pessoas suscetíveis.
Segundo Kfouri, a vacinação indiscriminada permite alcançar pessoas que podem não ter sido vacinadas ou que não conseguem comprovar o histórico de imunização. Ao mesmo tempo, pessoas que já receberam as doses recomendadas podem receber uma dose adicional.
A vacina contra o sarampo não oferece proteção de 100% a todas as pessoas. Por isso, uma dose extra pode aumentar a proteção de indivíduos que eventualmente não responderam adequadamente às doses anteriores.
A vice-coordenadora do Departamento Científico de Imunização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), Ana Karolina Marinho, explica que a vacinação ampliada é uma estratégia reconhecida internacionalmente para controlar a doença.
“Ao aumentar rapidamente o número de pessoas protegidas ao redor dos casos e em áreas de maior risco, diminui-se a quantidade de indivíduos suscetíveis e reduz-se a possibilidade de o vírus continuar circulando”, disse também ao G1.
Quem deve tomar a vacina contra o sarampo em São Paulo?
A estratégia temporária contempla pessoas de 6 meses a 59 anos que moram ou circulam por:
- São Paulo;
- São Bernardo do Campo;
- Guarulhos.
A recomendação vale independentemente do número de doses recebidas anteriormente.
Quem não sabe se foi vacinado ou perdeu a carteira de vacinação também deve procurar um posto de saúde. Dentro da estratégia, não é necessário comprovar o histórico vacinal.
Diante do cenário atual, a medida é diferente da rotina do Calendário Nacional de Vacinação. Em condições habituais, a tríplice viral é indicada a partir dos 12 meses de idade, com a primeira dose aos 12 meses e a segunda aos 15 meses.
Em situações de circulação do vírus, entretanto, o Ministério da Saúde pode recomendar estratégias adicionais para ampliar a proteção.
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Por que bebês de 6 a 11 meses também serão vacinados?
Bebês entre 6 e 11 meses normalmente ainda não receberam as doses de rotina da tríplice viral. Em situações de maior risco, eles podem receber uma dose adicional, conhecida como dose zero. Essa dose não substitui as doses previstas no calendário. A criança deverá continuar seguindo o esquema recomendado a partir dos 12 meses.
A proteção obtida nessa idade também não é considerada ideal. Ainda assim, pode diminuir a possibilidade de infecção e, principalmente, de formas graves.
Os menores de 1 ano estão entre os grupos que merecem atenção porque ainda não completaram o esquema de vacinação e podem apresentar maior risco de complicações.
Quem não deve receber a tríplice viral?
Embora a vacinação seja a principal forma de prevenção diante dos casos de sarampo, existem situações em que a tríplice viral não deve ser aplicada. Gestantes não devem receber a vacina, por exemplo. Isso porque a tríplice viral utiliza vírus vivos atenuados, que é contraindicada durante a gestação.
Nesse caso, a proteção depende também da imunização das pessoas que convivem com a gestante. Quanto maior a cobertura vacinal da comunidade, menor a possibilidade de o vírus chegar até quem não pode receber o imunizante.
Pessoas com imunossupressão grave também não devem receber a tríplice viral. Já em situações de imunossupressão leve, a indicação pode variar.
A decisão deve considerar a condição clínica e o grau de imunossupressão. Pessoas que vivem com HIV, por exemplo, podem ter indicação de vacinação em determinadas circunstâncias quando estão em tratamento, com carga viral controlada e boa resposta imunológica.
Por isso, pessoas imunossuprimidas devem conversar com o profissional de saúde que acompanha o caso antes da vacinação.
Por que pessoas com 60 anos ou mais não estão na campanha?
A estratégia temporária em São Paulo foi direcionada à faixa de 6 meses a 59 anos.
Segundo Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a maioria das pessoas com 60 anos ou mais nasceu antes da introdução da vacina no Programa Nacional de Imunizações e provavelmente teve contato natural com o vírus.
“A grande maioria das pessoas com 60 anos ou mais nasceu antes da introdução da vacina no Programa Nacional de Imunizações e provavelmente teve contato natural com o vírus, mesmo que não se lembre disso. Por isso, já desenvolveu uma imunidade duradoura e não faz parte da estratégia de vacinação”, disse ao Uol.
Isso não significa que todas as pessoas com 60 anos ou mais estejam automaticamente protegidas. Por isso, dúvidas sobre o histórico individual devem ser avaliadas com um profissional de saúde.
Quem já teve sarampo precisa se vacinar?
Quem teve diagnóstico confirmado de sarampo, por avaliação médica ou exame laboratorial, não precisa receber a dose adicional. A situação é diferente para quem acredita ter tido a doença, mas nunca teve confirmação.
Nesses casos, a orientação apresentada pela SBIm é pela vacinação quando não houver comprovação de imunidade. Na dúvida, a recomentação é se vacinar.
Quem não sabe se tomou a vacina deve receber uma dose?
Sim, dentro da estratégia adotada nos três municípios paulistas.
A vacinação está sendo realizada independentemente do histórico vacinal. Isso permite alcançar pessoas que não sabem quantas doses receberam ou não conseguem localizar a carteira de vacinação.
Uma dose adicional não representa prejuízo para quem já foi imunizado. A recomendação é especialmente importante porque a ausência de informação sobre a vacinação não significa que a pessoa esteja protegida.
É preciso esperar entre a tríplice viral e outras vacinas?
Na maioria das situações, a tríplice viral pode ser aplicada no mesmo dia que outras vacinas.
A atenção maior envolve outros imunizantes que também utilizam vírus vivos atenuados. Dependendo da vacina, pode ser necessário respeitar um intervalo de quatro semanas quando as aplicações não são realizadas no mesmo dia.
Há uma orientação específica para crianças menores de 2 anos em relação à vacina contra febre amarela. Nesses casos, a tríplice viral não deve ser aplicada no mesmo dia da vacina contra febre amarela.
Por isso, é importante informar ao profissional de saúde quais vacinas foram recebidas recentemente.
Quem está gripado pode tomar a vacina?
Depende da intensidade dos sintomas.
Pessoas com resfriado leve, sem febre e com bom estado geral, podem ser vacinadas. Já quem apresenta febre ou uma doença moderada ou grave deve aguardar a recuperação.
Segundo Mônica Levi, o parâmetro é estar há pelo menos 24 horas sem febre e em bom estado geral antes da vacinação. “O parâmetro é permanecer pelo menos 24 horas sem febre e estar em bom estado geral antes de receber a vacina”, disse também ao Uol.
A espera também ajuda a evitar que sintomas da doença sejam confundidos com possíveis reações ao imunizante.
A vacina contra o sarampo pode causar reações?
Sim, mas os eventos adversos costumam ser leves e pouco frequentes.
Entre as reações possíveis estão dor no local da aplicação, febre baixa e pequenas manchas avermelhadas na pele.
Algumas pessoas podem apresentar febre e manchas entre cinco e 12 dias depois da vacinação. Esse quadro é conhecido popularmente como “sarampinho”. De acordo com Levi, ele ocorre em cerca de 5% dos vacinados, não transmite a doença e desaparece sozinho.
A reação provocada pela vacina é diferente do sarampo causado pelo vírus selvagem. As manifestações relacionadas ao imunizante costumam ser mais leves.
A vacinação é contraindicada para pessoas com histórico de anafilaxia após uma dose anterior ou para indivíduos gravemente imunocomprometidos.
Quais são os sintomas do sarampo?
O sarampo é uma doença viral altamente contagiosa.
Entre os principais sintomas estão:
- febre de 38,5°C ou mais;
- manchas avermelhadas pelo corpo;
- tosse seca;
- coriza;
- conjuntivite não purulenta.
As manchas geralmente começam na cabeça e avançam progressivamente em direção aos pés.
Diante de sintomas compatíveis, especialmente após contato com um caso suspeito ou confirmado, a orientação é procurar atendimento médico e informar sobre a possibilidade de exposição ao vírus.
O sarampo pode causar complicações graves?
Sim. Apesar de ser uma doença que pode ser evitada por vacinação, casos de sarampo podem provocar complicações graves e até levar à morte.
Os quadros mais graves são mais frequentes entre crianças menores de 5 anos, principalmente as desnutridas, adultos com mais de 20 anos, pessoas com baixa imunidade e outros grupos em situação de vulnerabilidade.
Entre as complicações possíveis estão:
- otite média;
- broncopneumonia;
- diarreia;
- encefalite.
A pneumonia e a encefalite estão entre as complicações que podem levar à morte.
A encefalite provoca inflamação do cérebro e pode comprometer o sistema nervoso central.
O que fazer se o posto não tiver a vacina?
A orientação é procurar outra unidade de saúde caso o posto procurado não tenha o imunizante disponível.
Segundo a SBIm, não há previsão de falta de doses para a estratégia, já que o Ministério da Saúde distribuiu vacinas para abastecer a rede durante a campanha.
Caso o profissional da unidade não conheça a recomendação de vacinação ampliada, a orientação é solicitar a presença do responsável pelo posto para esclarecer a estratégia.
Além disso, a vacinação contra o sarampo é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A ampliação temporária em São Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos busca justamente aumentar rapidamente a proteção da população e reduzir os casos de sarampo e as oportunidades de transmissão enquanto houver circulação do vírus.
Cobertura vacinal abaixo da meta aumenta o risco
A queda da cobertura vacinal é outro fator de preocupação diante dos casos de sarampo registrados em São Paulo.
Em 2026, a primeira dose da tríplice viral alcançou 77,5% de cobertura no estado, enquanto a segunda chegou a 65,5%. A meta estabelecida pelo Ministério da Saúde é de 95% para ambas.
Em 2025, os índices haviam sido de 94% para a primeira dose e 84,4% para a segunda.
A meta de 95% busca manter uma quantidade suficientemente pequena de pessoas suscetíveis para dificultar a continuidade de uma cadeia de transmissão.
Quando a cobertura cai, aumenta o número de pessoas que podem contrair e transmitir o vírus. “Depois que você perde o controle, a epidemia se instala e é muito difícil de segurar”, disse Kfouri ao G1.
O cenário também ajuda a explicar por que a vacinação precisa alcançar diferentes grupos e regiões. Uma cidade pode apresentar uma cobertura média elevada e, ainda assim, ter comunidades ou faixas etárias com baixa proteção, contribuindo para o aumento de casos de sarampo.
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