Por muito tempo, engravidar depois dos 40 anos foi visto como uma situação excepcional. Hoje, a gravidez tardia aparece com mais frequência nas estatísticas e nas histórias que chegam ao noticiário. Mas, diante dos avanços da medicina reprodutiva, uma questão permanece. Afinal, até onde é possível adiar a maternidade sem ultrapassar os limites da biologia?

O tema voltou a circular depois que a jornalista Maju Coutinho anunciou, aos 48 anos, que espera o primeiro filho. Antes dela, Sabrina Sato engravidou do segundo aos 45, e Claudia Raia foi mãe pela terceira vez aos 55. São histórias que despertam fascínio, mas também dúvida.

Apesar dos avanços, a idade continua sendo um fator importante para a fertilidade feminina. A quantidade e a qualidade dos óvulos diminuem ao longo dos anos. Esse processo se torna mais acentuado depois dos 35 anos e ainda mais evidente após os 40.

O que explica o aumento da gravidez tardia no Brasil e no mundo?

Os números confirmam que não se trata apenas de percepção. Segundo dados do IBGE, o número de brasileiras que tiveram filhos depois dos 40 anos aumentou. Esse valor passou de 64 mil em 2010 para 106,1 mil em 2022. Ou seja, um crescimento de 65,7%. Nos Estados Unidos, relatórios do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) mostraram, pela primeira vez, que as gestações depois dos 40 anos superaram os partos na adolescência.

Esse cenário resulta de uma combinação de fatores sociais e médicos. Como explicou o ginecologista Igor Padovesi, especialista em menopausa, ao portal Terra, "o aumento do número de gestações depois dos 40 anos se deve tanto a fatores sociais e comportamentais como aos avanços da medicina reprodutiva". A ginecologista obstetra Ana Paula Fabrício reforçou essa mudança de prioridades, também ao Terra. Segundo ela, "as mulheres, hoje, priorizam o sucesso profissional, a carreira, a estabilidade financeira e só depois a maternidade. Antes, era o contrário".

Maternidade em diferentes fases da vida

O crescimento da maternidade após os 40 anos não significa, porém, que a gravidez entre mulheres mais jovens ou adolescentes tenha deixado de acontecer. Os dados oficiais mostram que o Brasil vive, ao mesmo tempo, uma mudança na distribuição das idades maternas e a permanência da gravidez na adolescência.

Os dados do IBGE reforçam esse cenário. Entre 2003 e 2023, os nascimentos de mães com 40 anos ou mais passaram de cerca de 57 mil para pouco mais de 109 mil. No mesmo período, os nascimentos de mães com até 19 anos caíram de 583 mil para 296 mil.

Os números ajudam a evidenciar a gravidez tardia no país. Isso porque o aumento da maternidade depois dos 40 anos faz parte de uma transformação no perfil dos nascimentos. Porém, isso não representa o desaparecimento da maternidade em outras faixas etárias.

Esse cenário também ajuda a entender por que falar sobre planejamento reprodutivo envolve realidades distintas. Enquanto algumas mulheres adiam a maternidade por razões profissionais, financeiras ou pessoais, adolescentes ainda enfrentam gestações precoces. Um fator que pode trazer impactos para a saúde, os estudos e a trajetória profissional.

Além disso, o Ministério da Saúde destaca que a gravidez entre 10 e 14 anos pode estar associada a riscos biológicos e psicossociais específicos.

Mas por que a fertilidade diminui com a idade?

A explicação biológica está na própria reserva ovariana. As mulheres nascem com uma quantidade limitada de óvulos. Essa quantidade diminui progressivamente ao longo da vida, tanto em número quanto em qualidade. Esse processo se torna mais perceptível a partir dos 30 anos e se acelera depois dos 35.

A ginecologista Fernanda Polisseni, da Associação Brasileira de Reprodução Assistida, detalhou o que acontece nas células ao longo do tempo, em entrevista ao G1. Segundo a médica:

"Nascemos com esses óvulos, que ficam sujeitos a doenças, medicamentos, poluição, estresse e tudo que nós passamos ao longo da vida. Isso significa uma alteração na energia celular. Então, ele vai sofrendo um impacto com o tempo e perdendo essa capacidade de produzir energia para a célula. Com isso, o óvulo passa a ter dificuldade de separar os pares de cromossomos para formar um embrião e vêm as alterações".

O especialista em reprodução humana Rodrigo Rosa, ao Gazeta, reforçou a ideia. Além disso, para ele, essa queda de qualidade também eleva o risco de alterações genéticas nos embriões. "Uma mudança importante na qualidade do óvulo é a frequência de anormalidades genéticas chamadas aneuploidia (muitos ou poucos cromossomos no óvulo)", destacou.

Segundo ele, o problema se agrava com o tempo. Isso porque "à medida que uma mulher envelhece, mais de seus óvulos têm poucos ou muitos cromossomos. Isso significa que, se ocorrer a fertilização, o embrião também terá muitos ou poucos cromossomos".

O médico lembra ainda que "a maioria dos embriões com muitos ou poucos cromossomos não resulta em gravidez ou resulta em aborto espontâneo". Esse fator ajuda a explicar por que, aos 40 anos, cerca de um terço das mulheres pode não conseguir engravidar.

Até onde a reprodução assistida consegue ajudar

O congelamento de óvulos surgiu como estratégia para driblar parte dessa perda. A técnica retira óvulos ainda jovens, congela e os preserva para uso futuro por meio da fertilização in vitro (FIV). Essa é a técnica em que a fecundação acontece em laboratório antes da transferência do embrião para o útero.

De acordo com Polisseni, a idade ideal para fazer o congelamento é entre os 30 e 35 anos. Isso porque é nessa faixa etária que ainda existe uma boa quantidade de óvulos com qualidade. Por outro lado, quando não há óvulos próprios viáveis, a doação de óvulos se torna outra alternativa.

Nesse caso, os óvulos de uma doadora são fecundados em laboratório. Logo em seguida, o embrião é transferido para o útero da futura mãe. A ginecologista e obstetra Larissa Pires, especializada em reprodução humana e medicina fetal, ponderou os limites dessa técnica.

"Nesses casos, conseguimos reduzir o impacto da idade sobre a qualidade genética do óvulo, mas não eliminamos os efeitos do envelhecimento sobre o organismo da mulher que irá carregar a gestação. Por isso, uma mulher de mais de 45 pode, sim, chegar a uma gestação, mas estamos falando de uma situação muito diferente de uma gravidez natural aos 48 ou 50 anos", disse ao G1.

Ainda segundo Padovesi, esse recurso costuma ficar em segundo plano nos relatos públicos. "Muitas mulheres não compartilham que recorreram a óvulos de doadoras, o que pode criar a falsa impressão de que engravidar tardiamente ficou mais fácil do que realmente é", relatou a preocupação ao Terra.

Quais são os riscos da gravidez tardia?

Depois dos 40 anos, alguns problemas na gravidez tardia se tornam mais frequentes. Hipertensão, pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, alterações placentárias, parto prematuro e maior necessidade de cesariana são os principais exemplos. A obstetra Karina Belickas, do Hospital e Maternidade Santa Joana, resumiu os riscos para o bebê.

De acordo com a especialista, "há também os riscos fetais como aumento de taxa de aborto, aumento de risco cromossômico e aumento do risco de restrição de crescimento fetal por uma placentação inadequada", disse ao G1.

A presidente da Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), Rosiane Mattar, também alertou para os riscos específicos de uma gravidez alcançada por fertilização in vitro (FIV). "Gravidez obtida por FIV tem muito mais riscos de abortamento, prematuridade, insuficiência placentária e partos mais difíceis", pontuou também ao G1. 

Para ela, o adiamento da maternidade tem explicações legítimas, mas exige consciência. "Hoje, a mulher tem que estudar, trabalhar, ajudar no sustento da família, quer alcançar sucesso e viver um pouco a vida antes de ter filho, e os métodos contraceptivos melhoraram, garantindo a ela a possibilidade de escolher. Mas é importante que ela saiba que, ao deixar para depois, os riscos vão aumentando, não tem jeito", reforçou.

Existe uma idade máxima para engravidar?

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina estabelece 50 anos como limite de idade para mulheres buscarem técnicas de reprodução assistida. As exceções, porém, podem acontecer, desde que sejam justificadas pelo médico responsável. Naturalmente, a possibilidade de engravidar termina com a menopausa, quando os ovários param de liberar óvulos. 

Mesmo assim, a medicina reprodutiva consegue, em certas circunstâncias, viabilizar uma gestação depois desse período, usando óvulos ou embriões preservados anteriormente ou óvulos doados.

O caso de Claudia Raia ilustra bem a complexidade do tema: durante uma tentativa de FIV, os hormônios usados no procedimento fizeram com que ela voltasse a ovular naturalmente, mesmo já estando na menopausa, e a gravidez acabou ocorrendo de forma espontânea, segundo relato da própria atriz. 

Já a médica Larissa Pires destaca que nenhuma técnica reverte de fato a idade biológica do óvulo. "Também não existe atualmente uma técnica capaz de transformar um óvulo de 45 anos em um óvulo biologicamente equivalente ao de uma mulher de 25 ou 30 anos. É justamente por isso que histórias de gestações tardias precisam ser apresentadas com contexto. Elas mostram que a medicina ampliou as possibilidades de maternidade, mas não eliminou os efeitos do envelhecimento reprodutivo", disse.

Os cuidados essenciais no pré-natal tardio

Para o ginecologista Carlos Campagnaro, ser classificada como gravidez tardia não significa que a gestação terá complicações. Por outro lado, isso quer dizer que o pré-natal precisa de atenção redobrada. "A partir dos 35 anos, observamos mudanças fisiológicas que podem aumentar alguns riscos obstétricos e fetais. Isso não quer dizer que a mulher não possa ter uma gravidez saudável, mas sim que o acompanhamento médico deve ser mais criterioso", disse ao Gazeta.

Segundo ele, o envelhecimento ovariano afeta diretamente as chances de concepção e a saúde do embrião. Isso porque "o envelhecimento dos óvulos aumenta a probabilidade de alterações cromossômicas, além de tornar a concepção naturalmente mais difícil quando comparada às mulheres mais jovens". 

Por outro lado, os avanços recentes da medicina fetal têm ajudado a reduzir complicações, "reduzindo significativamente suas complicações. Hoje dispomos de recursos diagnósticos e de acompanhamento que possibilitam excelentes resultados mesmo em gestações consideradas de maior risco".

Entre as recomendações práticas, Campagnaro cita hábitos que devem ser adotados antes e durante a gestação. "A adoção de hábitos saudáveis, incluindo alimentação equilibrada, prática de atividade física orientada, controle do peso corporal e acompanhamento de doenças pré-existentes, também é fundamental. Em alguns casos, o médico poderá solicitar exames complementares ou consultas com especialistas para um monitoramento mais detalhado" disse o professor do Unesc.

Cada caso de gravidez tardia deve serer tratado individualmente

Para o médico, o fator determinante não é apenas a idade da gestante, mas a qualidade do acompanhamento. Segundo Campagnaro:

"O mais importante é que a gestação seja planejada e acompanhada adequadamente. A idade, por si só, não determina o sucesso ou o fracasso de uma gravidez. O que faz a diferença é a avaliação individualizada da saúde da mulher e a realização de um pré-natal bem conduzido."


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