Os desafios financeiros de mães solo deixaram de ser uma exceção para se tornarem a regra em uma parcela significativa dos lares no Brasil. O Dia das Mães se aproxima, mas a celebração muitas vezes mascara uma estatística árdua. Os dados indicam que quase metade das mulheres brasileiras que têm filhos vive a realidade de criá-los sem a participação da outra pessoa responsável.
De acordo com a terceira edição da pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado, realizada pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o Sesc, 45% das mães são as únicas responsáveis pela criação de seus filhos.
O cenário é de uma maternidade que, mesmo cercada de afeto, possui uma necessidade econômica e uma ausência de rede de apoio. O sustento da família, muitas vezes, se torna uma jornada solitária de sobrevivência.
Os números revelados pelo levantamento são um reflexo de uma desigualdade estrutural. Três em cada quatro mulheres no Brasil são mães. O peso dessa responsabilidade recai, em grande parte, exclusivamente sobre os ombros femininos.
O peso da solidão entre os desafios financeiros de mães solo
A disparidade de gênero na criação dos filhos fica ainda mais evidente com os dados do IBGE. Segundo o levantamento “Censo Demográfico 2022: Nupcialidade e Família”, divulgado no final de 2025, existem 7,8 milhões de mulheres criando filhos sozinhas no país. Os homens na mesma situação representam 1,2 milhão.
Na prática, isso significa que para cada pai solo, há seis mães solo no Brasil. Essa diferença aumentou nas últimas duas décadas. Em 2000, as mães solo representavam 11,6% das famílias. Hoje, esse número saltou para 13,5%. Enquanto isso, o percentual de pais solo é de 2%.
Essa realidade é vivida cotidianamente por mulheres como Pamela Santos, de 32 anos, moradora da Rocinha, no Rio de Janeiro, e líder da Favela Seguros na região. Ela se tornou mãe aos 24 anos, em um momento de ruptura amorosa e crise familiar.
A trajetória de Pamela exemplifica como os desafios financeiros de mães solo são agravados por eventos inesperados. Logo após o nascimento da filha, a principal provedora da casa, sua mãe, foi diagnosticada com câncer de mama.
"Eu me vi com uma recém-nascida e com uma mãe em tratamento oncológico", conta Pamela.
A sobrecarga não é apenas financeira, mas de tempo. O estudo da Fundação Perseu Abramo aponta que a carga de trabalho não remunerado é desproporcional. Mulheres com filhos pequenos dedicam, em média, 14 horas e 55 minutos por semana a atividades de cuidado e afazeres domésticos. Essa jornada dupla (ou tripla) sufoca as oportunidades de crescimento profissional e estabilidade econômica.
Para Pamela, o "dar conta" significou garimpar oportunidades para garantir o sustento da família. "Na internet eu achava algum site que vendesse atacado e arrumava um jeito de vender aquilo", conta.
Crédito: Kleber Cordeiro/Shutterstock
É possível superar os desafios financeiros de mães solo?
Diante desse cenário, a organização financeira deixa de ser uma escolha e passa a ser uma ferramenta de proteção.
Segundo Gilmara Gonzalez, Educadora e Terapeuta Financeira Comportamental, montar um orçamento quando a renda depende de uma só pessoa exige, antes de tudo, um ajuste de padrão de vida que acompanhe a realidade.
"Montar um orçamento sendo a única provedora da casa não é só uma questão de números. É uma questão de responsabilidade emocional também. O primeiro passo é aceitar a realidade sem culpa. Se a renda é uma, o padrão de vida precisa acompanhar essa renda", explica Gilmara.
Complementando essa visão, a especialista Janina Jacino, educadora financeira comportamental com base em neurociência, enfatiza que o ponto de partida deve ser o "momento presente". Para Janina, a mãe solo precisa trazer para o agora todos os seus valores, despesas fixas, variáveis, filhos e pendências.
"O momento presente é o teu ponto de partida. Você não consegue fazer nada com o que já passou e você não consegue fazer nada com o que você almeja. Você só pode lidar, mexer, adequar e adaptar no momento presente", afirma Janina.
Priorizar pode ser o segredo
Para quem vive no limite do orçamento, Gilmara orienta uma hierarquia rígida de prioridades para garantir que o básico não falte. A ordem sugerida pela especialista foca na manutenção da estrutura familiar. Confira:
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Moradia: aluguel ou financiamento, por ser a base da estabilidade. “Ter um teto é o básico da estabilidade”, aponta a especialista.
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Alimentação: focar no necessário e evitar desperdícios com planejamento de cardápio. “Comida não é negociável, aqui entra a organização para evitar desperdício. Vale fazer marmita, compras semanais ao invés de fazer aquela compra do mês enorme”, reforça.
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Contas essenciais: água, luz, gás e transporte. ”Tudo aquilo que mantém a casa funcionando”, exemplifica.
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Geração de renda: gastos que permitem continuar trabalhando, como internet e o cuidado com os filhos (creches ou cuidadores). “Essas coisas são necessárias para que você possa gerar a sua renda”, explica.
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Gastos ajustáveis: lazer e compras por impulso, que devem ser revistos. “Não é que a pessoa vai deixar de viver em lazer. Ela pode buscar alternativas gratuitas, por exemplo”, justifica.
"Muitas mães colocam tudo na frente, menos elas. Mas quando a mãe desorganiza a própria vida financeira, toda a estrutura da casa derrete e sente", alerta Gilmara.
Janina Jacino concorda que a alimentação e a subsistência básica são prioritárias, mas ressalta que a mãe deve entender seu papel central. "Não é o contexto familiar em si que ela precisa priorizar, mas entendendo que ela é a pilastra, a mentora e a cuidadora. Tirando a subsistência, a prioridade é a alimentação e o bem-estar dessas crianças, como higiene e necessidades escolares", pontua Janina.
A criatividade para gerar renda
A história de Pamela ilustra bem essa necessidade de "se virar" para gerar renda enquanto se cuida. "Eu comecei a vender algumas coisas Vendia capinha de celular personalizada. Depois que ela nasceu, eu comecei a fazer chaveirinhos de miçanga. Vendi doce, fazia bolo de pote, trufa", conta.
O esforço era para manter a qualidade de vida da filha e não depender totalmente da mãe. No entanto, o falecimento de sua mãe, quando sua filha ia fazer quatro anos, trouxe um novo obstáculo. Enfrentar os desafios financeiros de mães solo nesse momento de luto exigiu de Pamela uma resiliência que vai além da planilha.
"A gente perdeu minha mãe e as coisas ficaram mais difíceis porque a gente morava de aluguel. Eu fiquei com medo de não conseguir dar as coisinhas, que por mais que fossem simples, talvez faltariam", conta Pamela.
Juventude e a interrupção de trajetórias
Outro dado alarmante da pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo é que 39% das brasileiras engravidam pela primeira vez antes dos 18 anos. A maioria sem planejamento ou suporte. Para muitas, como no caso de mulheres negras e de baixa renda, a gravidez na adolescência é o fator determinante para a interrupção da trajetória escolar.
A falta de planejamento e a chegada precoce da maternidade mudam drasticamente a percepção de futuro dessas mulheres. Os desafios financeiros de mães solo que engravidaram quando jovens são ainda mais acentuados pela falta de oportunidades profissionais. Pamela recorda que, antes de ser mãe, sua responsabilidade com o dinheiro era muito menor.
"Antes eu não tinha responsabilidade com nada. Depois da maternidade a gente se preocupa com o amanhã, se preocupa em não faltar nada para eles, se preocupa na nossa falta, a gente se preocupa deles ficarem desamparados. Quando se entrega para a maternidade, muda muito. Não só em questão de dinheiro.”
Pâmela e sua filha, quando ainda era pequena. Crédito: Acervo pessoal
O impacto da maternidade precoce e a importância da reserva
Essa preocupação com o desamparo é um dos maiores pesos emocionais para quem chefia uma família sozinha. Gilmara Gonzalez reforça que a criação de uma reserva estratégica (que ela prefere chamar assim para tirar o peso da palavra "emergência") é uma questão de sobrevivência.
"O começo não é sobre ter valor alto, é sobre criar o hábito de guardar. Seja 10 reais, 20 reais, aquilo que couber no orçamento. Quem depende só dela precisa construir um colchão emocional e financeiro, porque o imprevisto não avisa", orienta Gilmara.
Janina aprofunda essa questão sob a ótica comportamental. Para ela, antes da reserva, deve vir a mudança de mentalidade e a autodisciplina.
"Não existe uma reserva de emergência se você antes não criar o hábito de poupar, de reservar, de separar. Essa reserva é o que vai te dar paz, porque qualquer coisa que fuja do orçamento, ainda que não seja uma adversidade, trará desequilíbrio para quem tem um orçamento enxuto", alerta Janina.
Ela adverte ainda que a falta dessa "reserva de paz" deixa a mãe solo vulnerável. “Muitas pessoas dizem que não devem nada para ninguém, mas não têm nada sobrando. Essa pessoa está exposta a se tornar descontrolada ou inadimplente no primeiro imprevisto. Começar a poupar é um exercício de autoconhecimento e alinhamento de propósito", explica a especialista.
O seguro como proteção para o futuro dos filhos
A proteção financeira futura é um tema que ganha relevância conforme essas mães amadurecem em sua gestão doméstica. Hoje, com mais conhecimento sobre finanças, Pamela reflete que uma proteção financeira teria amenizado os traumas do passado.
"Na perda da minha mãe, talvez eu não tivesse passado por alguns perrengues que eu passei se a gente tivesse um seguro. [Como conselho], eu diria para se prevenir porque não faz sentido a gente carregar dentro da gente esse medo de faltar alguma coisa", diz ela, que hoje compreende o valor da previdência e dos seguros para as famílias.
O desafio, portanto, não é apenas um problema de gestão de recursos, mas um reflexo de uma carga social que ainda entende o cuidado como uma obrigação exclusivamente feminina. Compreender o peso doss desafios financeiros de mães solo é, antes de tudo, reconhecer essa desigualdade estrutural.
A organização, no fim das contas, é o que garante a sustentabilidade emocional do lar diantes dos desafios financeiros de mães solo. Janina sugere um ciclo de 90 dias para estabilização. O primeiro mês para tomada de consciência. O segundo para ajustes. Já o terceiro para a definição de um orçamento que permita a reserva. "O próprio bem-estar da mãe vai atingir os filhos. Quando ela tem conhecimento e controle, ela garante a sustentabilidade. Ela é a pilastra mestra", conclui Janina.
Gilmara Gonzalez encerra suas orientações lembrando que a organização deve ser vista como autocuidado e não como punição.
"Você, mulher, não precisa dar conta de tudo, mas precisa aprender a se sustentar com consciência", afirma.
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Os desafios financeiros de mães solo e a sobrecarga do dia a dia pesam, e proteger a família não deve custar a sua saúde mental. Neste mês de maio, a MAG Seguros assume o papel de cuidar de você oferecendo 10 mil vagas de assistência psicológica gratuita.
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