O tratamento do câncer de mama triplo-negativo vive uma fase de ampliação de estratégias. A quimioterapia segue como base, mas hoje outras abordagens podem entrar em cena, conforme cada caso. É o caso da imunoterapia, das terapias direcionadas a grupos específicos de pacientes e dos anticorpos conjugados a medicamentos, os ADCs.
O tema foi debatido em um encontro realizado em São Paulo e a conversa passou por diagnóstico, evolução das terapias, qualidade de vida e acesso à informação.
Um subtipo com características próprias
O câncer de mama triplo-negativo representa cerca de 10% a 15% dos casos da doença. O nome vem da ausência de três marcadores usados na classificação do tumor, que são o receptor de estrogênio, receptor de progesterona e superexpressão de HER2. Por isso, os tratamentos hormonais e as terapias voltadas ao HER2 não funcionam da mesma forma nesses tumores.
Para Antonio Carlos Buzaid, Diretor Médico Geral dos Centros de Oncologia dos Hospitais Nove de Julho e Samaritano Higienópolis, da Rede Américas, identificar o subtipo é o ponto de partida.
“Quando falamos em câncer de mama, é importante entender que não estamos diante de uma doença única. Existem diferentes subtipos, com características biológicas próprias, e essa identificação é fundamental para orientar a avaliação clínica e as possibilidades de tratamento de cada paciente”, afirmou Buzaid em entrevista ao Medicina S/A.
Um cenário de alta incidência no Brasil
O assunto ganha peso diante dos números. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no triênio 2026–2028. Sem contar os tumores de pele não melanoma, é o câncer mais comum entre as brasileiras. Ele responde por cerca de 30% dos novos casos estimados na população feminina.
Os dados de mortalidade também chamam atenção. Em 2024, o país registrou 20.849 mortes por câncer de mama, segundo o Atlas de Mortalidade por Câncer/SIM. Nesse contexto, o tratamento do câncer de mama triplo-negativo precisa acompanhar o avanço do conhecimento sobre a biologia da doença.
Crédito: Dragon Images/Shutterstock
Tratamento do câncer de mama triplo-negativo e a escolha da primeira linha
Historicamente, esse subtipo está associado a um comportamento mais agressivo. Os desafios terapêuticos, portanto, tendem a ser maiores do que em alguns outros tipos. Na doença metastática, as células da mama chegam a órgãos distantes, como ossos, fígado, pulmões ou cérebro. Nessa fase, a estratégia inicial pesa ainda mais.
A definição do tratamento reúne vários fatores. Entram na conta as características do tumor, a presença de biomarcadores e os tratamentos já realizados. Também contam a condição clínica da paciente, os riscos e benefícios de cada opção e o impacto na qualidade de vida. A primeira linha merece atenção especial, porque pode influenciar as possibilidades das etapas seguintes.
“No câncer de mama metastático, a escolha da primeira linha de tratamento pode influenciar as etapas seguintes da jornada. Por isso, a avaliação individualizada, considerando características do tumor, condição clínica, biomarcadores, riscos, benefícios e preferências da paciente, é cada vez mais importante”, disse Buzaid ao Medicina S/A.
O cuidado vai além da doença
A jornada de quem enfrenta o câncer de mama não se resume ao tratamento. Efeitos adversos, fadiga e controle de sintomas fazem parte da rotina. A ansiedade com os exames também pesa. Há ainda impactos no trabalho, na vida financeira, na sexualidade, na imagem corporal, na autonomia e nas relações familiares.
Para Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia, a individualização do cuidado precisa considerar tudo isso.
“O tratamento é uma parte importante da jornada, mas não é a única. Para muitas mulheres, existem desafios desde o momento de buscar um diagnóstico até conseguir compreender suas opções de cuidado, reorganizar a rotina, lidar com os impactos emocionais e encontrar uma rede de apoio. Olhar para a paciente de forma integral é tão importante quanto olhar para a doença”, afirmou Luciana também ao Medicina S/A.
Por isso, informação clara, apoio adequado e participação nas decisões também fazem parte do cuidado. Ao final do encontro, os participantes destacaram três mensagens. O câncer de mama não é uma doença única. O conhecimento sobre a biologia do subtipo triplo-negativo continua avançando. E o cuidado deve considerar a vida da paciente além do consultório.
Lacunas de informação sobre o câncer de mama
Mesmo com tantos avanços, ainda falta informação. Uma pesquisa Datafolha encomendada pela Gilead Oncology, em 2023, ouviu 1.007 mulheres de 25 a 65 anos, de todas as regiões do país. Entre elas, 69% se consideravam bem-informadas sobre câncer de mama.
Na prática, porém, só 11% souberam citar algum tipo de tumor de mama ou estágio da doença. Outras 16% acreditavam que todos os cânceres de mama eram iguais. Esse desconhecimento afeta diretamente a compreensão sobre o tratamento do câncer de mama triplo-negativo e sobre a importância de buscar uma avaliação individualizada.
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