Errar na escolha profissional. Não conseguir aquela promoção. Ver um relacionamento terminar. Investir tempo em um projeto que não funciona. Precisar mudar de planos. Tomar uma decisão e, algum tempo depois, perceber que faria diferente. Por mais que tentemos evitar, errar faz parte da vida. O problema é que nem sempre aprendemos a conviver com isso. Vivemos cercados por histórias de sucesso, conquistas profissionais, viagens, relacionamentos felizes e vidas aparentemente bem resolvidas. Nesse contexto, um fracasso pode ganhar uma dimensão muito maior do que deveria e ser interpretado não apenas como algo que deu errado, mas como uma prova de incapacidade pessoal. Só que existe uma diferença importante entre “eu falhei nisso” e “eu sou um fracasso”.
Atravessar frustrações sem permitir que elas definam quem somos pode ser um desafio. Aprendemos como lidar com os nossos erros ainda na infância, e levamos esse aprendizado para todas as idades. Entretanto, enquanto estivermos fazendo escolhas, iniciando projetos, construindo relações e experimentando coisas novas, estaremos sujeitos à possibilidade de algo não sair como esperávamos. Muitas pessoas evitam tentar pelo medo de errar. Buscar ajuda profissional pode ser a chave para quem lida com sentimentos de fracasso e culpa diante dos próprios erros.
Imagem: daily-creativity/shutterstock
Sofrer também faz parte da experiência humana
Nem toda tristeza, frustração ou sofrimento significa que exista um transtorno psicológico. O psicólogo Filipe Colombini lembra que sofrer e errar faz parte da experiência humana. O cuidado deve aumentar quando observamos “a intensidade, a duração e, principalmente, o quanto esse sofrimento começa a interferir no sono, no trabalho, nos estudos, nas relações, no autocuidado e na capacidade de seguir a vida e a rotina do dia a dia”.
Essa diferenciação é importante quando falamos sobre fracassos. Perder um emprego, não conseguir alcançar um objetivo ou ver um projeto terminar pode provocar tristeza, raiva, vergonha e frustração. Não precisamos fingir que essas emoções não existem ou tentar eliminá-las imediatamente. Ao mesmo tempo, é importante observar quando o sofrimento começa a comprometer outras áreas da vida e se torna difícil demais para ser enfrentado sozinho.
A psicóloga Cristiane Felipe explica que o sofrimento psíquico ocorre quando “a dor emocional de uma pessoa começa a ultrapassar aquilo que ela consegue enfrentar sozinha e passa a interferir na forma como ela pensa, sente, se relaciona ou realiza suas atividades”. Reconhecer esse limite também é uma forma de cuidado.
A pressão para acertar sempre pode tornar o erro ainda mais doloroso
Existe outro elemento que pode dificultar nossa relação com os próprios fracassos: a impressão de que todo mundo está dando certo, menos nós. A psicóloga Rita Aventurato chama atenção justamente para essa pressão social.
“As pressões para demonstrar felicidade, sucesso e desempenho também podem fazer com que alguém esconda aquilo que está vivendo. Por isso, parecer bem não significa necessariamente estar bem”, afirma.
É fácil perceber essa dinâmica nas redes sociais. Normalmente vemos o anúncio do emprego novo, não as recusas que vieram antes. Vemos a empresa que prosperou, mas pouco sabemos sobre os projetos que fracassaram. Conhecemos o livro publicado, não necessariamente os originais recusados. Isso pode criar uma régua pouco realista para avaliar a própria trajetória.
Em vez de enxergar erros e mudanças de rota como acontecimentos possíveis em qualquer vida, podemos passar a interpretá-los como sinais de que ficamos para trás. Só que as trajetórias reais raramente são linhas retas.
Steve Jobs: ser afastado da própria empresa não encerrou sua história
Um dos exemplos mais conhecidos de que errar faz parte da vida vem do mundo da tecnologia. Steve Jobs havia fundado a Apple ainda jovem e viu a empresa crescer rapidamente. Anos depois, porém, acabou afastado da companhia que ajudara a criar. Ser retirado do próprio negócio poderia ter representado o encerramento daquela trajetória, mas não foi.
Jobs criou outra empresa, a NeXT. Mais tarde, ela foi adquirida pela própria Apple e ele retornou à companhia, dessa vez assumindo novamente um papel central em sua história.
Em um famoso discurso realizado anos depois, Jobs diria que não havia percebido naquele momento, mas ser demitido da Apple acabara abrindo espaço para uma nova fase de sua vida.
A história não significa que toda demissão trará uma oportunidade melhor ou que basta perseverar para que tudo termine bem. A vida não oferece esse tipo de garantia.
Mas ela ajuda a lembrar de algo importante: um acontecimento pode parecer definitivo enquanto estamos vivendo-o e adquirir outro significado quando olhamos para ele algum tempo depois.
Erro não precisa virar identidade
Pode ser que uma das maiores dificuldades diante de uma falha seja separar o acontecimento daquilo que pensamos sobre nós mesmos. Um projeto que não funcionou é um projeto que não funcionou. Uma decisão ruim é uma decisão que, com as informações de hoje, talvez fosse tomada de outra maneira. Uma demissão é o encerramento de um vínculo profissional. Nenhuma dessas situações, isoladamente, consegue resumir uma pessoa inteira.
Isso não significa fugir da responsabilidade. Alguns erros realmente são resultado de nossas decisões e podem ter consequências. Reconhecê-los, reparar aquilo que for possível e aprender com eles faz parte do processo.
O cuidado está em não transformar responsabilidade em autojulgamento. Em vez de apenas perguntar “como pude errar?”, outras perguntas podem ajudar:
- O que eu sabia quando tomei aquela decisão?
- O que aprendi depois dela?
- Existe algo que ainda posso reparar?
- O que eu faria diferente hoje?
- Qual é o próximo passo possível a partir daqui?
O passado não pode ser refeito. Mas aquilo que aprendemos com ele pode interferir nas escolhas seguintes.
Walt Disney: uma empresa que faliu antes do império do entretenimento
Hoje, o nome Walt Disney está associado a um dos maiores negócios de entretenimento do mundo. Mas essa história também teve fracassos.
Antes do sucesso, Disney teve um estúdio de animação e cinema em Kansas City que acabou falindo em 1922. Depois disso, mudou-se para a Califórnia e recomeçou sua trajetória. Foi nessa nova fase que surgiria, alguns anos mais tarde, Mickey Mouse.
Conhecer esse capítulo anterior muda um pouco a maneira como enxergamos o resultado final. Quando observamos apenas aquilo que deu certo, é fácil acreditar que pessoas bem-sucedidas souberam desde o início exatamente o que estavam fazendo.
Quase nunca conhecemos toda a sequência de tentativas, decisões equivocadas, mudanças de direção e circunstâncias que vieram antes. E talvez esteja aí um dos aprendizados possíveis sobre o fracasso: aquilo que não funcionou também produz informação. Depois de um erro, sabemos algo que antes não sabíamos.
É preciso tomar cuidado com a obrigação de “dar a volta por cima”
Histórias de recomeço podem inspirar. Mas elas também precisam ser contadas com cuidado. Nem toda perda precisa imediatamente se transformar em aprendizado. Nem toda pessoa consegue reagir no mesmo tempo. E ninguém precisa demonstrar força o tempo inteiro.
Há momentos em que será necessário parar, elaborar o que aconteceu e pedir ajuda. Isso é especialmente importante quando falamos de sofrimento psicológico.
Cristiane Felipe reforça que “sofrimento psíquico não é ‘frescura’, fraqueza ou falta de fé. É uma experiência humana que merece ser escutada e acolhida”.
Por isso, dizer simplesmente “levanta e tenta de novo”, “você precisa ser forte” ou “tudo acontece por uma razão” pode não ajudar alguém que está atravessando uma situação difícil. Respeitar o tempo de cada pessoa e manter uma escuta ativa também faz parte do acolhimento.
Por que errar faz parte e pode nos ensinar lições?
Não precisamos romantizar os erros para reconhecer que eles podem trazer aprendizados. Algumas perguntas podem ajudar a olhar para uma experiência difícil com mais perspectiva:
- O que estava sob meu controle? Nem tudo que dá errado depende exclusivamente das nossas escolhas.
- O que foi responsabilidade minha? Reconhecer a própria participação permite aprender sem transformar o erro em culpa permanente.
- O que sei agora que não sabia antes? Essa informação pode ser útil em decisões futuras.
- Há algo que posso reparar? Pedir desculpas, renegociar uma situação ou corrigir uma decisão pode fazer parte do processo.
- O que não consigo mudar? Aceitar limites também evita gastar energia tentando reescrever aquilo que já aconteceu.
- Qual é o próximo passo possível? Não precisa ser uma grande virada. Pequenas decisões também são formas de recomeçar.
Falhar faz parte da vida e não significa fracassar
Steve Jobs e Walt Disney são exemplos conhecidos justamente porque sabemos o que aconteceu depois de seus momentos difíceis. Na vida cotidiana, os recomeços nem sempre serão grandiosos. Na verdade, não precisam ser.
Dar a volta por cima pode significar conseguir um novo emprego. Reorganizar as contas. Reconstruir um relacionamento. Abandonar um projeto que não fazia mais sentido. Pedir desculpas. Começar novamente. Ou simplesmente reconhecer que é necessário algum tempo antes de decidir o próximo passo.
Errar e falhar faz parte da vida, mas isso não significa que precisemos enfrentar sozinhos todas as consequências emocionais dessas experiências.
Como lembram os especialistas, o sofrimento também faz parte da experiência humana. O importante é observar sua intensidade e duração e o quanto ele interfere na vida cotidiana.
Crises podem passar, sofrimentos podem ser tratados e novas possibilidades podem surgir. Quando estiver difícil demais enxergá-las sozinho, conversar, ser ouvido e procurar ajuda também podem fazer parte do recomeço.
Onde buscar ajuda
Quando o sofrimento psicológico é intenso ou persistente, é importante buscar atendimento adequado. Confira onde encontrar ajuda:
- Mapa da saúde mental - Encontre locais de atendimento gratuito em saúde mental em diferentes regiões do Brasil. http://mapasaudemental.com.br
- Mapa do acolhimento - Serviço de apoio para mulheres que estão passando por situações de violência. Oferece apoio psicológico e jurídico. http://mapadoacolhimento.org
- CAPS - Centro de atenção psicossocial - Serviço público de saúde mental do SUS. Oferece acolhimento, acompanhamento e cuidado para pessoas em sofrimento psíquico, inclusive em situações de crise. Procure o CAPS de referência da sua região.
- PA/Pronto-socorro psiquiátrico - Serviço de urgência especializado em saúde mental para situações de crise que precisam de avaliação e atendimento presencial imediato.
- UPA 24h - Unidade de Pronto Atendimento do SUS disponível 24 horas para situações de urgência e emergência. Em uma situação de crise, procure a UPA mais próxima.
- SAMU-192 - Em situações de emergência ou quando houver risco imediato à integridade física, ligue 192.
- Corpo de bombeiros - 193 - Em situações de emergência que exijam intervenção imediata para garantir a segurança da pessoa, ligue 193.
- CVV-188 - O CVV oferece apoio emocional e escuta por meio de voluntários, 24 horas por dia, pelo telefone 188.
O CVV não é um serviço de emergência. Em situações de risco imediato, procure um serviço de emergência ou ligue 192. - Espaço Amarelo - Clínica especializada em prevenção do suicídio e portal de informações sobre saúde mental, com atendimento psicológico, orientação familiar, direcionamento e supervisão para profissionais. Atendimento em português e inglês. Instagram: @espaco_amarelo | WhatsApp: (71) 9 9996-9191
Aqui, você não está só é a mensagem central da campanha de Setembro Amarelo do Instituto de Longevidade MAG, que reúne cartilha de acolhimento, consultas psicológicas gratuitas e um webinar especializado para falar sobre saúde mental, cuidado e prevenção ao suicídio. Participe!
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