O Outubro Rosa volta a colocar em evidência os desafios na luta contra o câncer de mama. Esta é uma das doenças que mais afetam mulheres no Brasil e no mundo. Contudo, os desafios vão além da idade para fazer a mamografia.
Em setembro de 2025, foi anunciada a ampliação do exame pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para mulheres a partir dos 40 anos. Essa mudança visou atender a uma reivindicação antiga das sociedades médicas. Mas especialistas alertam que a mudança só terá efeito com reorganização do sistema. Ao mesmo tempo, uma pesquisa global mostra que o diagnóstico tardio e o custo do tratamento pesam sobre as pacientes mais jovens.
A última diretriz nacional, de 2015, previa o rastreamento apenas dos 50 aos 69 anos. A rotina de exames deveria ser a cada dois anos. As sociedades médicas, por outro lado, defendiam havia tempo um início mais cedo e o exame anual. “Todas as sociedades relacionadas ao rastreamento do câncer de mama já recomendam que ele se inicie aos 40 anos, e que seja realizado anualmente”, afirmou a mastologista Danielle Martin Matsumoto, do Einstein Hospital Israelita, à CNN.
A realidade brasileira ajuda a explicar a cobrança por mudanças. “Nos Estados Unidos, a idade média de incidência de casos de câncer de mama gira em torno de 62 anos; no Brasil, é 52. Além disso, mais de 20% das mulheres brasileiras recebem o diagnóstico abaixo dos 45 anos”, pontuou Matsumoto.
A nova norma também alcança mulheres de até 74 anos. Com isso, a realização do exame passa a depender de decisão compartilhada entre paciente e médico. Para Matsumoto, a inclusão formal da faixa de 40 a 49 anos deve diminuir negativas. Por outro lado, esse formato ainda deixa parte da responsabilidade na interpretação de cada profissional.
Dados do Inca mostram o tamanho do problema
Excluídos os tumores de pele não melanoma, o câncer de mama é o mais incidente entre as mulheres de todas as regiões. Os dados constam do documento Controle de câncer de mama no Brasil: dados e números 2025, do Instituto Nacional de Câncer (Inca).
Para cada ano de 2023 a 2025, foram estimados 73.610 novos casos. Isso representa 41,89 casos por 100 mil mulheres, o que reforça os desafios na luta contra o câncer de mama. Além disso, as taxas mais altas estão no Sul e no Sudeste. A expectativa é que mais diagnósticos iniciais reduzam a mortalidade.
“Quando usamos a mamografia anual em duas incidências [dois posicionamentos da mama], os estudos demonstram redução global de mortalidade em torno de 30%. Em mulheres com menos de 50 anos, esse benefício pode ser um pouco menor, ao redor de 20 a 25% da redução da mortalidade, mas ainda muito importante”, destacou Matsumoto.
A diferença se deve às características das pacientes mais novas. Isso porque elas tendem a ter mamas mais densas, o que eleva o risco de resultados falsos-negativos e de biópsias desnecessárias. Há ainda o efeito nas contas públicas. Isso porque os diagnósticos avançados exigem cirurgias mais invasivas e mais sessões de quimioterapia e radioterapia.
Gargalos de acesso travam o diagnóstico precoce
Reduzir a idade do exame não significa, automaticamente, ampliar o acesso. E um dos desafios na luta contra o câncer de mama atuais é o fato de que o rastreamento é oportunístico. Nesse modelo, a mulher precisa procurar uma unidade básica de saúde por conta própria e depende de um profissional que solicite o exame.
“Esse já é um primeiro gargalo. Muitas vezes falta informação para a paciente sobre seus direitos ou não há médico ou enfermeira disponível para emitir o pedido”, reforçou Matsumoto. Com o pedido em mãos, o caminho até o mamógrafo continua desigual. “Em regiões mais distantes e com menor densidade populacional, chegar a um local que tenha o equipamento pode ser muito difícil. E ainda há desafios de agendamento, disponibilidade e qualidade do laudo”, comentou a médica. Para ela, é preciso garantir profissionais suficientes para laudar os exames.
O governo prevê o uso de unidades móveis para diminuir distâncias. O mastologista Luiz Ayrton Santos Junior, presidente da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), vê limites. “Unidades móveis aumentam cobertura, mas não garantem diagnóstico precoce se não houver sequência adequada. Muitas vezes o exame é realizado, mas não há acompanhamento imediato”, alertou também à CNN.
Santos Junior defende um programa nacional de rastreamento ativo, em que o sistema de saúde convoca as pacientes para o exame. “O SUS é o cartão de visita do país, mas a alocação de recursos é um desafio. As leis avançam, mas sua implementação depende de como decidimos investir nelas”, disse.
Crédito: PRIME STOCK LAB/Shutterstock
Desafios na luta contra o câncer de mama incluem as mulheres jovens
A primeira pesquisa global dedicada a mapear os desafios de pacientes jovens com doença avançada traz números que ampliam esse debate. Conduzido pelo Projeto 528, o estudo reuniu 3.800 respostas de participantes de 67 países.
O nome vem da estimativa de que 528 mil mulheres vivem hoje com câncer de mama avançado. Das respostas, 385 eram de mulheres com menos de 40 anos. Mais da metade desse grupo cuida de filhos menores de 18 anos e 52% eram cuidadoras primárias.
Os desafios na luta contra o câncer de mama ainda mostram que a doença tende a ser mais grave nessa faixa etária. “O câncer de mama nesse grupo é biologicamente mais agressivo do que em mulheres mais velhas”, explicou a oncologista Patrícia Taranto, do Einstein Hospital Israelita, em entrevista ao Veja Saúde. Segundo ela, há maior risco de tumor triplo negativo, que tem menos opções de tratamento.
Os dados de diagnóstico reforçam o problema. Apenas 14% das participantes chegaram ao diagnóstico por triagem clínica ou rotina. A maioria, 85%, descobriu a doença ao perceber sintomas, o que frequentemente aponta fases avançadas. Segundo a pesquisa, 52% receberam o diagnóstico já no estágio 4.
Desafios financeiros pesa na jornada das pacientes
O impacto no orçamento aparece cedo e atinge a casa inteira. Mais da metade das mulheres com menos de 40 anos é responsável pelo cuidado de filhos menores de 18 anos, e muitas sustentam o lar. Com o diagnóstico, a renda sofre.
Seis em cada dez relataram dificuldades no trabalho após o início do tratamento. Para 59%, manter as contas em dia virou um problema. Outras 40% acumularam dívidas médicas. De uma forma geral, a percepção de estabilidade financeira, que antes alcançava metade das entrevistadas, caiu para 20%.
O custo também entra na conta dos desafios na luta contra o câncer de mama e interfere nas decisões clínicas. Para 36% das participantes, o preço das terapias influenciou a escolha do tratamento. Segundo a oncologista Patrícia Taranto, o avanço da medicina tem um efeito econômico direto.
“Ao mesmo tempo que o tratamento evolui para a melhora dos desfechos, com a sobrevida global subindo, os valores associados a esse tratamento também podem aumentar de maneira muito significativa, chegando a custos muito elevados por ciclo de tratamento”, destacou.
O efeito é mais pesado para quem não tem recursos ou enfrenta negativas de cobertura. “A ‘toxicidade’ financeira é algo que realmente pode impactar de maneira significativa e negativa na jornada do paciente oncológico, limitando o acesso”, observou a médica.
Falhas médicas também aumentam os desafios na luta contra o câncer de mama
A barreira econômica se soma a falhas no atendimento. O levantamento indica que 40% das pacientes adiaram a busca por ajuda especializada, mesmo após o diagnóstico. Muitas relataram que médicos da atenção primária ignoraram sinais iniciais ou que não havia informação clara sobre riscos.
A desigualdade chega também aos exames de precisão. Nove em cada dez entrevistadas fizeram testes genéticos para detectar mutações hereditárias. Só 59% tiveram acesso a testes genômicos do tumor, fundamentais para orientar terapias mais precisas. Como consequência, apenas 46% receberam mais de uma opção de tratamento.
“O estudo foi muito eficiente em demonstrar que, com o aumento de diagnóstico de câncer de mama em pacientes e mulheres jovens, as disparidades são gigantes, com dificuldades que impedem desde o diagnóstico precoce até o tratamento”, analisou Taranto.
O custo também pesa para o sistema público. O presidente da Femama, Luiz Ayrton Santos Junior, relacionou diagnóstico precoce e gasto em saúde. “Quanto mais precoce um tumor é diagnosticado, menores são os custos para o SUS e maiores os benefícios para a sobrevivência da paciente. É uma questão de otimização de recursos”, disse.
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