Os transtornos mentais e comportamentais afetam atualmente cerca de 1,2 bilhão de pessoas no mundo. O valor é quase o dobro do número registrado em 1990. Os dados são de um novo estudo publicado na revista científica The Lancet, liderado por pesquisadores do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME), nos Estados Unidos, em colaboração com cientistas da Universidade de Queensland, na Austrália.
No Brasil, o impacto também é expressivo. Aproximadamente 45 milhões de brasileiros convivem com algum tipo de condição de saúde mental. O que siginifica dizer que uma em cada cinco pessoas sofrem com esse problema.
O levantamento analisou a prevalência dos transtornos em 204 países e territórios entre 1990 e 2023. Com isso, se torna a observação mais abrangente já realizada do tipo. Foram avaliados 12 tipos de transtornos, incluindo ansiedade e transtorno depressivo maior (TDM).
O peso invisível dos transtornos
Para mensurar o impacto dos transtornos mentais e comportamentais, os pesquisadores utilizaram o indicador DALY. Ele representa anos de vida perdidos ajustados por incapacidade. A medida soma os anos perdidos por morte prematura e os anos vividos com limitações causadas pela doença.
No Brasil, esses transtornos geram entre 6,5 e 8,7 milhões de anos de vida saudável perdidos. Quase toda essa carga vem da convivência prolongada com sofrimento psíquico e perda de qualidade de vida. O impacto relacionado à morte prematura é bem menor. A medida varia entre 194 e 429 anos perdidos.
Globalmente, os dados de 2023 associaram os transtornos a 171 milhões de DALYs. Quando analisados apenas os anos vividos com incapacidade (YLD), os transtornos mentais lideram a lista, respondendo por 17,3% do total mundial. Com isso se torna a principal causa de incapacidade no planeta, à frente de doenças cardiovasculares e câncer.
Na prática, esse peso ajuda a explicar a ligação crescente entre saúde mental e afastamentos do trabalho, burnout, queda no rendimento escolar, isolamento social e aposentadoria precoce.
Ansiedade e depressão puxam o crescimento
Os aumentos recentes foram impulsionados principalmente pela ansiedade e pela depressão. Desde 2019, a prevalência global de depressão subiu cerca de 24%, enquanto os transtornos de ansiedade cresceram mais de 47%. Ambos atingiram pico nos anos seguintes à pandemia de Covid-19.
Para Damian Santomauro, professor do Centro de Pesquisa em Saúde Mental de Queensland e do IHME e autor principal do estudo, os dados refletem um cenário estrutural complexo.
"Essas tendências de aumento podem refletir tanto os efeitos persistentes do estresse relacionado à pandemia quanto fatores estruturais de longo prazo, como pobreza, insegurança, abuso, violência e a redução dos laços sociais", diz.
Santomauro avalia ainda que "enfrentar esse desafio crescente exigirá investimento contínuo nos sistemas de saúde mental, ampliação do acesso ao cuidado e ação global coordenada para apoiar melhor as populações mais em risco".
Crédito: Tero Vesalainen/Shutterstock
Transtornos mentais e comportamentais atingem mais jovens e mulheres
O estudo identificou diferenças importantes entre faixas etárias. Na primeira infância, condições como transtorno do espectro autista (TEA), TDAH, transtorno de conduta e deficiência intelectual do desenvolvimento são mais prevalentes. Nessa fase, os meninos são mais afetados do que meninas.
Na adolescência, o cenário muda. Ansiedade e depressão passam a concentrar grande parte da carga de sofrimento mental. E é nessa fase que os transtornos atingem seu pico entre todas as faixas etárias.
Alize Ferrari, coautora do artigo e professora do Centro de Pesquisa em Saúde Mental de Queensland e do IHME, explica que, os "achados mostram que a carga de transtornos mentais atinge o pico entre jovens de 15 a 19 anos, um período crítico do desenvolvimento que pode moldar trajetórias de educação, emprego e relacionamentos."
As mulheres também concentram maior carga. Em 2023, 620 milhões de mulheres viviam com algum transtorno mental, contra 552 milhões de homens. No Brasil, elas acumularam entre 3,9 e 5,4 milhões de anos vividos com limitações relacionadas a essas condições, contra 2,5 a 3,3 milhões entre homens.
Para os pesquisadores, essas diferenças podem decorrer de maior exposição à violência doméstica e abuso sexual, maiores responsabilidades de cuidado e desigualdades estruturais como discriminação de gênero.
Acesso ao tratamento ainda é limitado
Apesar da escala do problema, o acesso ao tratamento adequado permanece restrito. Apenas 5% das pessoas com transtorno depressivo maior recebem cuidado adequado no mundo. Entre os 204 países analisados, somente um pequeno grupo de nações de alta renda, como Austrália, Canadá e Países Baixos, tem cobertura de tratamento acima de 30%.
O estudo mostra ainda que os transtornos mentais e comportamentais cresceram em todas as regiões, mas que áreas de alta renda, como Australásia e Europa Ocidental, registraram algumas das maiores taxas. Ao mesmo tempo, aumentos significativos foram observados na África Subsaariana Ocidental e em partes do Sul da Ásia. Essas são regiões onde a expansão do acesso aos serviços de saúde mental se torna ainda mais urgente.
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