Pressão estética: um termo que atravessa a vida de grande parte das mulheres, especialmente aquelas que não se encaixam em padrões impostos. Quem já não se sentiu pressionada, de alguma forma, a emagrecer, a se manter mais jovem, a realizar algum procedimento ou dar um jeito naquela marca de expressão? Não é à toa que vemos um número crescente de rostos cada vez mais parecidos na internet.

Recentemente, escrevi uma matéria muito interessante sobre os desafios que o público feminino enfrenta ao envelhecer e, inevitavelmente, todas as pessoas que entrevistei mencionaram a pressão estética como um deles. “Os homens, ao envelhecerem, muitas vezes são vistos como charmosos e experientes. As mulheres não”, disse uma das entrevistadas.

Mas essa pressão não surge apenas com o passar dos anos. Na verdade, ela começa cedo, muito antes do envelhecimento. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2024, divulgada pelo IBGE, revelou um cenário alarmante: 41% das meninas relataram ter se sentido tristes na maioria das vezes ou sempre nos 30 dias anteriores à pesquisa. Trata-se de um índice quase 2,5 vezes maior que o dos meninos (16,7%). De acordo com Gabriela Mora, da UNICEF no Brasil, questões como violência de gênero, assédio online e padrões estéticos inalcançáveis estão entre os fatores.

Além da saúde mental: o impacto da pressão estética no bolso

Mas, se os impactos na saúde mental e na autoestima já são amplamente discutidos, existe uma outra consequência igualmente relevante e ainda pouco debatida: o impacto financeiro.

Quanto custa ir ao salão, fazer as unhas, sobrancelhas, comprar maquiagem? Quanto custa pintar o cabelo e realizar procedimentos estéticos? Algumas pesquisas indicam que mulheres gastam cerca de 30% do salário com beleza e estética. Outras apontam percentuais ainda maiores, próximos de 50%. E não podemos esquecer que, em meio a tudo isso, as mulheres, em geral, ainda ganham menos que os homens.

O grande problema é que essa pressão não se limita a escolhas individuais. Ela cria um ciclo financeiro silencioso e difícil de romper. Ao tentar atender a expectativas estéticas constantes, muitas mulheres passam a direcionar uma parte significativa da renda para gastos recorrentes, muitas vezes considerados “obrigatórios” para pertencimento social e até profissional. Isso compromete diretamente a capacidade de poupar, investir e construir segurança financeira ao longo da vida.

Na prática, não se trata apenas de consumir mais, mas de ter menos margem para escolhas: menos liberdade para dizer não, mudar de carreira, sair de relações insatisfatórias ou planejar o futuro com tranquilidade.

O caso das canetas emagrecedoras

Um exemplo que trago para reflexão sobre esse cenário é o das chamadas canetas emagrecedoras. Já ouvi relatos sobre o tema nos mais diversos grupos, o que indica que o uso tem se tornado cada vez mais comum. Dados de março deste ano mostram que a liderança no consumo está entre mulheres de 40 a 49 anos.

Uma pesquisa da NielsenIQ revelou que 84% dos usuários dessas canetas já sentem um impacto entre médio e moderado no orçamento por causa da compra. O valor médio gasto mensalmente por 62,7% dos usuários ultrapassa R$ 800. Para dar conta desse custo, mais de 60% afirmaram ter mudado prioridades financeiras, reduzindo gastos com lazer, como idas a restaurantes, entre outras atividades.

Como lidar?

O primeiro passo é reconhecer que o consumo estético não acontece no vazio. Ele está profundamente ligado a pertencimento, autoestima e validação social. Por isso, não se trata apenas de “gastar menos”, mas de desenvolver consciência sobre o que está por trás de cada escolha.

Questionar padrões, entender gatilhos emocionais e refletir sobre prioridades pode abrir espaço para decisões mais alinhadas com aquilo que realmente importa. Contribuir para um mundo com menos julgamento e pressão de mulheres para mulheres também é essencial; assim como considerar que em um cenário em que enfrentamos desigualdades salariais e maiores responsabilidades financeiras ao longo da vida, preservar recursos também é uma forma de autonomia. 

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