Com a população brasileira envelhecendo em ritmo acelerado, cresce a busca por soluções que garantam autonomia, convivência e redes de apoio na velhice. Nesse cenário, uma cohousing surge como alternativa inovadora. Ela é capaz de responder a desafios contemporâneos como solidão, falta de suporte familiar e custos crescentes da vida individualizada. Você sabe como funciona?
O modelo de cohousing nasceu na Dinamarca, nos anos 60, combinando arquitetura, cooperação e senso comunitário. A ideia era unir moradias privativas a espaços coletivos pensados para facilitar a convivência e o apoio mútuo. Inicialmente voltado a famílias jovens, logo se mostrou adequado também para pessoas mais velhas. No lugar, elas encontravam um modo de vida socialmente ativo, seguro e economicamente viável.
Ao longo do tempo, as comunidades destinadas a adultos 50+ se multiplicaram, impulsionadas pelos bons resultados observados: mais interação, menos solidão e impactos positivos na saúde e no bem-estar.
Foto: Amigos da Cohousing BemViver/Divulgação
O que caracteriza uma cohousing
Diferente de um condomínio tradicional ou de um residencial voltado apenas para idosos, a cohousing é uma comunidade intencional. Isto significa que seus moradores escolhem estar ali porque compartilham valores, interesses e o desejo de construir juntos um modo de morar que equilibre privacidade e vida coletiva.
Alguns elementos são essenciais. Ou seja, o projeto é participativo, as decisões são tomadas de forma horizontal e a autogestão faz parte do cotidiano. As casas são independentes, garantindo autonomia, mas a comunidade conta com espaços comuns como cozinha, lavanderia, áreas verdes, salão multiuso ou oficinas. Eles ajudam a fortalecer vínculos e estimulam a cooperação. Atividades rotineiras, como compras coletivas ou pequenas manutenções, também são frequentemente compartilhadas, gerando senso de pertencimento e diminuindo custos.
Essa estrutura reduz a distância entre vizinhos, favorece a criação de redes de apoio informal e ressignifica a relação com o envelhecimento. A fase da vida deixa de ser sinônimo de isolamento e passa a ser uma etapa de trocas, convivência e propósito.
Por que esse modelo cresce entre pessoas 50+?
A mudança na composição das famílias, com menos filhos, maior longevidade e aumento da proporção de pessoas vivendo sozinhas, ajuda a explicar o interesse crescente pela cohousing. Muitas pessoas maduras ainda cuidam de pais idosos. Outras nunca tiveram filhos ou não desejam depender deles no futuro. Ao mesmo tempo, querem preservar sua autonomia, manter uma vida ativa e evitar o isolamento, um dos grandes fatores de adoecimento emocional e físico em idades avançadas.
A cohousing oferece um ambiente estruturado para isso. O convívio é frequente, mas não invasivo; existe suporte mútuo, mas sem a formalidade ou o custo de instituições; a rotina é flexível e construída pelo próprio grupo. Em vez de depender exclusivamente da família ou de serviços privados, cada morador contribui com o que sabe e recebe apoio quando precisa.
Além disso, soluções arquitetônicas adaptadas, como casas térreas, percursos acessíveis e áreas de convivência, fazem com que o espaço funcione como parte importante do cuidado.
Um modelo economicamente mais inteligente
Do ponto de vista financeiro, uma cohousing costuma ser mais acessível do que alternativas individuais. O compartilhamento de infraestrutura reduz gastos com internet, manutenção e energia. Compras coletivas aumentam o poder de negociação. Também é comum que moradores contratem profissionais em grupo. Entre eles, fisioterapeutas, professores de atividades físicas ou nutricionistas. Ou seja, pagam menos por serviços que, individualmente, seriam caros ou inviáveis.
Além disso, muitas cohousings operam sob forma de cooperativa, na qual o imóvel pertence à comunidade e o morador detém o direito de uso vitalício, que pode ser transferido ou vendido. Esse formato reduz custos iniciais e facilita a entrada de pessoas com diferentes condições financeiras.
Diversidade de formatos ao redor do mundo
Embora nascido na Dinamarca, o modelo de cohousing se espalhou e se adaptou a distintas culturas. Na Espanha, predominam unidades compactas voltadas a pessoas mais velhas. Nos Estados Unidos, as casas são frequentemente agrupadas em vilas independentes. No Reino Unido, comunidades de tamanhos variados reúnem moradores de diferentes idades. Já em países nórdicos como Suécia e a própria Dinamarca, é comum que os espaços comuns ocupem áreas centrais, incentivando encontros diários.
Foto: Amigos da Cohousing BemViver/Divulgação
Cohousing Bem Viver: uma comunidade 50+ construída a muitas mãos
A Cohousing Bem Viver, em Mogi das Cruzes (SP), é um dos projetos mais estruturados de habitação colaborativa para pessoas acima de 50 anos atualmente em desenvolvimento no Brasil. A iniciativa surgiu em 2019, impulsionada por um grupo que buscava um modo de morar mais simples, conectado à natureza e alinhado a valores de cooperação e bem-estar.
O nome faz referência ao conceito guarani “Tekó Porã”, que expressa a ideia de uma vida boa, harmoniosa e integrada ao ambiente e às relações humanas; princípios que orientam toda a proposta da comunidade.
Da inspiração à construção de uma vila
O projeto começou a tomar forma quando seus idealizadores visitaram, anos antes, a ecovila Findhorn, na Escócia, referência internacional em vida comunitária sustentável. A experiência levou o grupo a pesquisar diferentes modelos de moradia colaborativa até encontrar na cohousing uma estrutura que reunia autonomia individual, convivência ativa e viabilidade econômica.
A partir daí, a comunidade foi se ampliando. Hoje reúne futuros moradores que participam das decisões, do desenho dos espaços e da governança do grupo. A área escolhida, um terreno de 60 mil m² no bairro do Cocuera, reflete esse propósito. Trata-se de um local urbano com clima rural, cercado de verde, com nascente, lago e área de preservação permanente, mas ainda próximo de serviços essenciais e da infraestrutura da cidade.
Arquitetura pensada para conviver
A vila contará com 32 casas térreas, avarandadas e distribuídas em quatro metragens diferentes (49, 89, 98 e 110 m²), todas seguindo o mesmo estilo arquitetônico. O projeto, aprovado pela prefeitura, foi desenvolvido por um arquiteto que também será morador, garantindo que as soluções espaciais atendam às necessidades reais da comunidade.
Os espaços coletivos têm papel central. Ou seja, refeitório para refeições preparadas em grupo, salão multiuso, bar e churrasqueira, além de blocos destinados a ateliê, artesanato, terapias, piscina coberta, sala de ginástica e lavanderia compartilhada. O planejamento ecológico do terreno e as diretrizes de sustentabilidade também foram desenvolvidos em processo participativo.
Embora as obras estejam prestes a começar, a comunidade já existe de maneira ativa desde 2019. A governança se dá por Sociocracia, modelo que distribui responsabilidades, favorece decisões por consentimento e estimula participação contínua.
O grupo também promove encontros culturais, passeios e atividades de lazer, fortalecendo vínculos que tendem a facilitar a futura transição para a vida compartilhada. Para os participantes, esse período prévio de formação do grupo tem sido fundamental para construir confiança, afeto e senso de pertencimento.
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