O autismo na terceira idade tem sido um tema de crescente interesse à medida que mais idosos recebem diagnósticos tardios. O transtorno do espectro autista (TEA) acompanha o indivíduo por toda a vida. Porém, muitas pessoas envelhecem sem saber que fazem parte do espectro.
A falta de conhecimento sobre os sinais do autismo na velhice pode impactar a qualidade de vida. Além disso, pode dificultar o acesso ao suporte necessário.
Além disso, compreender que o autismo na terceira idade exige olhar atento é fundamental para a saúde pública atual. Muitas vezes, os sintomas são confundidos com demências ou apenas com o temperamento ranzinza do idoso.
Na verdade, o que vemos é o autismo em adultos que nunca tiveram a chance de uma avaliação. A ciência mostra que pessoas com TEA enfrentam barreiras específicas quando o corpo e a mente começam a envelhecer.
O diagnóstico de autismo traz alívio emocional para quem sempre se sentiu diferente das outras pessoas ao redor. É um processo de autodescoberta que permite ressignificar décadas de desafios e sentimentos de exclusão social profunda.
Diagnóstico tardio e os impactos na rotina
O autismo foi mencionado pela primeira vez no Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais (DSM) em 1980. Desde então, os critérios diagnósticos passaram por mudanças significativas.
Muitos idosos que não preenchiam os requisitos para o diagnóstico no passado agora são reconhecidos dentro do espectro. Isso ocorre porque, ao longo da vida, muitas pessoas desenvolveram mecanismos para mascarar suas dificuldades sociais e sensoriais. Esse fenômeno conhecido como "masking".
“Adultos e idosos são exímios mascaradores do próprio comportamento autístico”, afirma o psiquiatra Alexandre Valverde, em entrevista ao Estadão. Segundo ele, muitos aprendem a disfarçar sinais como a dificuldade de socialização e a necessidade de rotina rígida. Isso pode dificultar a identificação do transtorno.
O autismo na terceira idade se manifesta de forma única em cada indivíduo, pois o grau de suporte pode variar. A comunicação social costuma ser um dos pontos mais afetados, gerando exaustão física e mental após eventos coletivos.
Muitos idosos também mantêm comportamentos repetitivos que foram reprimidos durante a juventude por medo de julgamentos ou punições. Ao envelhecer, a energia para manter o "masking" diminui, e os traços do TEA podem se tornar evidentes.
O diagnóstico de autismo nessa fase permite que a família adapte o ambiente para reduzir crises de ansiedade. É comum que o idoso apresente dificuldades na comunicação que impedem a expressão clara de dores físicas agudas.
Autismo na terceira idade e os desafios do envelhecimento
Com o passar dos anos, os desafios do autismo na terceira idade se tornam ainda mais evidentes. O isolamento social, dificuldades em lidar com mudanças e a sobrecarga sensorial são algumas das barreiras que podem comprometer a qualidade de vida.
Além disso, características como sensibilidade excessiva a ruídos e toques são frequentemente atribuídas ao envelhecimento, o que pode atrasar ainda mais o diagnóstico.
A necessidade de suporte se intensifica na velhice. Muitas pessoas autistas precisam de alguém para acompanhá-las em tarefas cotidianas. Ir ao mercado ou resolver questões burocráticas, segundo o geriatra e psiquiatra Ivan Aprahamian, em muitos momentos, são ações que precisam ser assistidas. Segundo ele, a ausência desse suporte pode aumentar os riscos de depressão e transtornos de ansiedade.
O manejo do autismo na terceira idade requer paciência, pois as mudanças biológicas alteram a percepção sensorial habitual. Muitas pessoas com TEA relatam que o som da televisão ou luzes fortes se tornam insuportáveis com a idade.
A rotina rígida serve como um porto seguro contra o caos de um mundo que parece barulhento. Movimentos repetitivos, como balançar as mãos ou o tronco, podem surgir como forma de autorregulação diante do estresse. É vital diferenciar esses atos de tiques motores ou sintomas de Parkinson, garantindo o tratamento correto e humanizado.
O autismo em adultos idosos também está ligado a uma maior sensibilidade a efeitos colaterais de medicamentos comuns. Sem o suporte adequado, a convivência com outras pessoas pode se tornar um fardo pesado para o idoso.
Como identificar o autismo na terceira idade?
Os sinais do autismo na terceira idade podem ser sutis e variar de pessoa para pessoa. Entre os mais comuns estão:
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Dificuldade em interpretar expressões faciais e linguagem corporal;
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Preferência por rotinas rígidas e resistência a mudanças;
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Hipersensibilidade a sons, luzes e texturas;
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Interesse intenso por determinados assuntos;
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Maior propensão ao isolamento social.
Embora o conhecimento sobre o autismo tenha avançado, ainda existem lacunas na identificação da condição em idosos. Segundo a gerontóloga Thais Lima-Silva, questões como independência, moradia, emprego e participação na comunidade ganham ainda mais importância no envelhecimento.
Especialistas também apontam que idosos com TEA podem exibir interesses muito focados em temas técnicos ou coleções específicas antigas. Os comportamentos repetitivos podem incluir a insistência em comer sempre os mesmos alimentos ou usar as mesmas roupas.
A verdade é que é o autismo que molda a forma como esses indivíduos processam as perdas da vida. Dificuldades na comunicação podem ser confundidas com teimosia, prejudicando o vínculo afetivo com os filhos e netos cuidadores.
Muitos idosos podiam ser vistos apenas como "excêntricos" ou "solitários" durante toda a sua trajetória profissional e familiar. O autismo na terceira idade finalmente explica por que certas interações sociais sempre foram tão custosas para eles.
Crédito: Andrii Nekrasov/Shutterstock
Saúde mental e outras condições associadas
O autismo na terceira idade frequentemente caminha junto com outras condições de saúde que surgem com o tempo natural. A ansiedade crônica é comum em quem passou décadas tentando se encaixar em padrões sociais que não compreendia.
Além disso, idosos com TEA podem apresentar distúrbios do sono e problemas digestivos severos e de difícil tratamento. É necessário investigar se o excesso de irritação é fruto de uma sobrecarga sensorial ou de uma depressão não diagnosticada anteriormente. O acompanhamento psicológico ajuda o idoso a entender que sua forma de ver o mundo é legítima e real.
O autismo em adultos idosos exige terapias que respeitem a história de vida e a autonomia de cada pessoa. Grupos de apoio para idosos neurodivergentes promovem a troca de experiências e reduzem o sentimento devastador de solidão.
Falta de suporte para idosos autistas no Brasil
O envelhecimento da população brasileira traz desafios adicionais para o atendimento de idosos autistas. De acordo com o Censo de 2022, o Brasil terá cerca de 58,2 milhões de pessoas acima dos 60 anos em 2060. No entanto, a quantidade de especialistas na área ainda é insuficiente. Segundo Thais, em entrevista ao Estadão, se considerarmos apenas geriatras com conhecimento sobre neurodivergência, o número é ainda menor.
A facilidade de acesso também precisa ir além das questões físicas. Para garantir o bem-estar de idosos autistas, especialistas recomendam ambientes adaptados. Eles sugerem áreas de descanso, menos ruído e comunicação visual mais clara. Além disso, é essencial que profissionais de saúde sejam capacitados para identificar sinais do TEA em idosos e oferecer o suporte adequado.
Como buscar ajuda?
Se houver suspeita de autismo na terceira idade, é fundamental procurar um clínico geral ou geriatra para encaminhamento a um especialista. O diagnóstico pode envolver avaliações que envolvem várias disciplinas e testes específicos. No Sistema Único de Saúde (SUS), é possível buscar atendimento em alguns locais específicos. Centros Especializados de Reabilitação (CER), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e unidades básicas de saúde prestam esse tipo de atendimento.
O reconhecimento do autismo na terceira idade pode ser transformador. Entender as próprias necessidades, buscar redes de apoio e adaptar a rotina pode melhorar muito a qualidade de vida. Isso ajuda pessoas que passaram a vida sem saber que fazem parte do espectro.
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