A solidão é prejudicial não apenas ao bem-estar emocional, mas também à saúde física. E o problema é mais comum do que se imagina. Segundo um relatório divulgado em junho de 2025 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão.

O documento também revela um dado preocupante: estima-se que a solidão esteja associada a aproximadamente 871 mil mortes por ano em todo o planeta. Isso equivale a cerca de 100 mortes por hora.

Os números reforçam a necessidade de olhar para as relações sociais como parte fundamental da saúde e da longevidade. Afinal, assim como manter uma alimentação equilibrada, praticar atividades físicas e cuidar da saúde mental, cultivar vínculos afetivos também contribui para uma vida mais longa e saudável.

A falta de conexões sociais pode, inclusive, representar um risco à saúde comparável ao de fumar até 15 cigarros por dia. Embora a comparação surpreenda, ela tem respaldo em pesquisas científicas. Os estudos relacionam a ausência de vínculos sociais ao aumento do risco de morte prematura.

Solidão é tão prejudicial quanto fumarImagem: Array Galery/Shutterstock

Por que a solidão é prejudicial à saúde?

Uma pesquisa publicada em 2010, liderada pela psicóloga Julianne Holt-Lunstad, identificou que a ausência de conexões sociais pode representar um risco de morte prematura de magnitude semelhante ao associado ao tabagismo.

Isso não significa que a solidão provoque exatamente as mesmas doenças que o cigarro. Porém, evidencia que seus efeitos sobre a saúde não devem ser subestimados.

De acordo com a OMS, a solidão e o isolamento social estão associados ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral (AVC), diabetes, declínio cognitivo e morte prematura. Também podem contribuir para problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão.

A psicóloga Adriana de Araújo, mestre em Psicologia Clínica pela Universidade Autónoma de Lisboa, explica que o problema merece atenção principalmente quando o sentimento se torna persistente.

"A solidão, quando não é momentânea ou passageira, pode afetar, sim, a saúde física e emocional. Pode aumentar o estresse, favorecer sintomas de ansiedade e depressão, prejudicar o sono e, segundo a literatura científica, está associada a um maior risco de doenças cardiovasculares."

Segundo a especialista, os relacionamentos desempenham um papel essencial na manutenção do equilíbrio emocional e físico. "Isso acontece porque nosso bem-estar também depende da qualidade das relações que estabelecemos. Ter vínculos afetivos e sociais é uma necessidade humana importante."

Estar sozinho é diferente de sentir solidão

Apesar de frequentemente serem utilizados como sinônimos, estar sozinho e sentir solidão são experiências diferentes. Uma pessoa pode morar sozinha, ter poucos contatos sociais e ainda assim sentir-se satisfeita com sua vida. Da mesma forma, alguém pode conviver diariamente com familiares, colegas e amigos e experimentar uma profunda sensação de desconexão.

A OMS define a solidão como um sentimento doloroso que surge quando existe uma diferença entre as conexões sociais que a pessoa deseja ter e aquelas que efetivamente possui. Já o isolamento social está relacionado à ausência objetiva de contatos e relacionamentos suficientes.

Adriana destaca que passar um tempo na própria companhia não é necessariamente algo negativo. "Estar sozinho não significa necessariamente sentir solidão. Muitas vezes, ficar sozinho é um bom caminho para descansar, refletir ou aproveitar a própria companhia, nossos pensamentos e ideias. Isso é solitude e pode ser saudável."

O problema surge quando a ausência de conexões significativas provoca sofrimento. 

"Já a solidão é diferente. Acontece quando sentimos falta de conexões significativas, mesmo estando cercados de pessoas. Esse sentimento pode provocar sofrimento emocional e até uma preocupação constante com situações que possam intensificá-lo. Ou seja, pode prejudicar o bem-estar e a qualidade de vida."

Quais são os sinais de alerta da solidão?

Nem sempre quem enfrenta a solidão consegue expressar o que está sentindo. Em alguns casos, o sofrimento aparece de maneira gradual e pode ser confundido com desânimo ou falta de disposição.

De acordo com Adriana de Araujo, alguns comportamentos merecem atenção:

"Tristeza frequente, desânimo, sensação de não pertencimento, afastamento social e perda de interesse por atividades com outras pessoas podem ser sinais de alerta."

Esses sinais não significam necessariamente que a pessoa esteja enfrentando um quadro de solidão persistente. Porém, indicam a importância de observar mudanças de comportamento e oferecer acolhimento.

Quando o sofrimento é frequente, intenso ou começa a comprometer a rotina e a qualidade de vida, buscar apoio psicológico pode ser um caminho importante.

Como prevenir a solidão e fortalecer os vínculos sociais?

A boa notícia é que existem atitudes que podem ajudar a reduzir o sentimento de solidão. E elas não precisam envolver grandes mudanças na rotina.

Retomar o contato com um amigo, participar de atividades em grupo, conhecer pessoas com interesses semelhantes ou reservar momentos para conversas significativas são formas de cultivar relacionamentos.

"Para prevenir, é importante cultivar vínculos de qualidade. Participar de atividades coletivas, conhecer pessoas novas e fortalecer os contatos e as redes de apoio é importante", orienta Adriana.

A psicóloga também chama a atenção para um aspecto frequentemente esquecido: as relações sociais não devem ser cultivadas apenas quando precisamos de ajuda.

"E vale lembrar que ter uma rede de apoio não é importante apenas nos momentos difíceis. Mas também para o lazer, a diversão e a vida em geral."

Além das iniciativas individuais, o enfrentamento da solidão depende da existência de ambientes que favoreçam a convivência. Espaços públicos acessíveis, centros comunitários, atividades culturais e projetos intergeracionais podem contribuir para aproximar pessoas e fortalecer os laços sociais.

Para Adriana, essa responsabilidade precisa ser compartilhada por toda a sociedade. "Existe uma responsabilidade social de criar espaços de acolhimento e convivência. Afinal, não basta estar rodeado de pessoas, é preciso se sentir conectado a elas."

Conexões sociais também fazem parte de uma vida longa e saudável

O relatório da OMS reforça que a conexão social deve ser considerada um componente essencial da saúde. Ou seja, deve ser tão importante quanto os cuidados físicos e mentais.

Isso significa reconhecer que a longevidade não depende apenas de viver mais anos. Também depende de como esses anos são vividos, das relações construídas e das oportunidades de participação na sociedade.

Se a solidão é prejudicial à saúde, fortalecer vínculos e criar ambientes de acolhimento são medidas que beneficiam não apenas os indivíduos, mas comunidades inteiras.


Que tal receber conteúdos sobre saúde, trabalho, finanças e muito mais?! Faça parte do nosso grupo de WhatsApp e fique sempre bem informado.


Leia também:

Solidão ou solitude: entenda a diferença entre os dois estados

Amizades na maturidade: por que elas se tornam essenciais para a saúde mental

Compartilhe com seus amigos

Receba os conteúdos do Instituto de Longevidade MAG em seu e-mail. Inscreva-se: