Perder alguém é uma das experiências mais difíceis que alguém pode enfrentar. E, quando a morte ocorre por suicídio, à dor da ausência podem se somar sentimentos como culpa, raiva, vergonha, sensação de abandono e uma pergunta para a qual nem sempre será possível encontrar uma resposta: por quê? Essas particularidades fazem com que o luto por suicídio possa ser especialmente desafiador. Para quem fica, além de elaborar a perda, muitas vezes é necessário enfrentar o estigma que ainda envolve o tema e até o silêncio das pessoas ao redor, que nem sempre sabem como agir.

Para a psicóloga especialista em perdas e luto Louisanne Sennyey, o luto em si já provoca uma importante desorganização na vida de quem perde alguém. “O processo de perda é extremamente desafiador. É uma das experiências mais estressantes que podemos viver. Ela nos desorganiza, exige a busca de um sentido, a ressignificação e a reorganização de quem somos a partir de uma perda”, explica.

Luto por suicídio pode gerar uma série de perguntasImagem: Flashmovie/Shutterstock

Luto por suicídio: a busca por um “por quê?”

Depois de uma morte por suicídio, é comum que familiares e pessoas próximas revisitem acontecimentos, conversas e comportamentos em busca de alguma explicação. Podem surgir pensamentos como “por que não percebi?”, “será que eu poderia ter feito alguma coisa?” ou “onde foi que erramos?”.

Segundo Louisanne, a busca por respostas faz parte do processo de perda. Porém, existe uma dificuldade adicional nesse caso: muitas respostas podem nunca chegar.

A psicóloga destaca ainda um ponto importante para quem enfrenta sentimentos de culpa: o suicídio não deve ser atribuído a uma única causa ou acontecimento. “A morte por suicídio nunca é por uma causa única. Ela pode ter acontecido a partir de uma última gota que transborda um copo, mas a responsável nunca é aquela gota. O suicídio é multicausal, multifatorial”, afirma.

A médica psiquiatra Dra. Letícia Tavares Araújo também chama atenção para essa busca incessante por uma explicação e para sentimentos que podem acompanhar o luto por suicídio, como culpa, raiva, abandono, rejeição e vergonha.

Segundo ela, o estigma social pode tornar a experiência ainda mais pesada, porque o sofrimento não acontece apenas internamente: o enlutado também pode enfrentar julgamentos e dificuldades para falar sobre a morte. Neste caso, é importante manter a escuta ativa. 

O silêncio nem sempre protege

Diante de alguém que perdeu uma pessoa por suicídio, amigos e familiares podem evitar tocar no assunto por receio de aumentar a dor. A intenção pode ser proteger, mas o resultado pode ser justamente o contrário.

Louisanne explica que o luto por suicídio tende a ser mais silenciado e menos reconhecido socialmente. “É como se, se o enlutado não falar no assunto, ele não sofresse. É como se não falar não fosse sentido. E isso é uma ilusão”, afirma.

Para ela, impedir ou desencorajar que a pessoa fale sobre quem morreu pode contribuir para que atravesse o processo de forma ainda mais solitária. Por isso, lembrar da pessoa que morreu, preservar memórias, reconhecer a importância daquele vínculo e encontrar espaço para expressar sentimentos podem fazer parte da elaboração da perda.

A Dra. Letícia também alerta para o que chama de “silêncio protetor”. Ou seja, quando familiares e amigos evitam o assunto por medo de provocar sofrimento. Em vez de necessariamente proteger, essa atitude pode aumentar a sensação de isolamento. Na outra ponta, também não ajuda tentar apressar o processo com cobranças para que a pessoa “siga em frente”.

Não existe uma maneira certa de viver o luto por suicídio

Cada pessoa reage de uma forma à perda. Por isso, não existe um roteiro único nem um prazo que determine quando alguém deveria estar “bem”. A Dra. Letícia explica que podem acontecer oscilações importantes: períodos de tristeza intensa podem se alternar com momentos de maior tranquilidade, conexão com outras pessoas e até de aparente normalidade. "Também pode acontecer de a pessoa experimentar algum momento de alegria ou alívio e, em seguida, sentir culpa por ter se permitido aquela sensação".

Isso não significa que ela tenha esquecido quem morreu ou que esteja sofrendo menos. Faz parte da maneira como cada indivíduo atravessa uma experiência extremamente dolorosa.

Louisanne reforça que o luto é uma experiência natural e singular, vivida de acordo com o vínculo que existia com quem morreu. “Luto não é doença”, ressalta a psicóloga.

Isso também significa que nem toda pessoa enlutada necessariamente precisará de acompanhamento profissional. Muitas conseguem atravessar o período com o suporte de familiares, amigos e outras redes de apoio.

O problema surge principalmente quando essa rede não existe, não consegue acolher ou quando o sofrimento começa a comprometer significativamente a vida cotidiana.

Quando é importante buscar ajuda profissional?

Mais importante do que estabelecer um prazo rígido para o sofrimento é observar como a pessoa está conseguindo viver e realizar suas atividades. Louisanne sugere prestar atenção a mudanças importantes no sono e no apetite. Também é importante checar se há maior isolamento, oscilações de humor e dificuldades para trabalhar ou seguir a rotina.

“É entender o quanto a vida dele continua sendo funcional e possível e o quanto começa a ter impactos muito profundos pela experiência do luto por suicídio”, explica.

A Dra. Letícia acrescenta outros sinais que merecem atenção. Entre eles, isolamento social crescente, uso cada vez maior de álcool ou outras substâncias para enfrentar a dor, dificuldade persistente de aceitar a realidade da morte, sensação de que a própria vida perdeu o sentido e prejuízos importantes nas relações, no trabalho e na rotina familiar.

Um sinal exige atenção especial: quando a pessoa passa a falar sobre a própria morte ou manifesta que não deseja mais viver. Nessa situação, o sofrimento não deve ser minimizado e é importante buscar ajuda.

Segundo a psiquiatra, pessoas que enfrentam luto por suicídio podem apresentar maior vulnerabilidade a problemas como depressão, luto prolongado e pensamentos suicidas. Isso torna ainda mais importante a presença de uma rede de apoio atenta.

Psicólogo ou psiquiatra?

Não existe uma resposta única para determinar quando procurar um psicólogo ou um psiquiatra. O acompanhamento psicológico pode proporcionar um espaço seguro de escuta e elaboração da perda, sobretudo quando a pessoa não encontra esse acolhimento em seu ambiente social.

Para Louisanne, quando o entorno falha, “o espaço terapêutico acaba sendo um espaço de companhia, um espaço de suporte”. Já a avaliação psiquiátrica pode ser necessária quando surgem condições clínicas associadas ao período de luto.

A Dra. Letícia ressalta que não existe medicação para “tratar o luto por suicídio”. O luto, por si só, não é uma doença. Medicamentos podem ser indicados pelo médico quando existem quadros associados, como depressão, transtornos de ansiedade ou transtorno de estresse pós-traumático, entre outras situações que precisam ser avaliadas individualmente.

Nesses casos, o objetivo não é apagar a tristeza ou eliminar o processo de elaboração da perda. Dependendo do quadro, o tratamento pode ajudar a melhorar sintomas que estejam comprometendo seriamente a vida da pessoa, como alterações importantes de sono, ansiedade incapacitante ou alterações de humor.

Rede de apoio pode fazer diferença

Nem sempre é preciso encontrar as palavras perfeitas para acolher alguém. Muitas vezes, estar disponível para ouvir sem julgar é mais importante do que oferecer explicações ou conselhos.

Grupos de apoio voltados especificamente a pessoas enlutadas por suicídio também podem ser uma alternativa. De acordo com a Dra. Letícia, uma das vantagens desses espaços é permitir o encontro com outras pessoas que passaram por uma experiência semelhante, reduzindo a sensação de isolamento e o peso do julgamento.

Para familiares e amigos, algumas atitudes podem ajudar:

  • oferecer disponibilidade para ouvir, sem pressionar a pessoa a falar;
  • permitir que ela mencione e relembre quem morreu;
  • evitar julgamentos e tentativas de encontrar culpados;
  • não cobrar que a pessoa “supere” a perda ou “siga em frente” rapidamente;
  • respeitar momentos de silêncio e também momentos em que ela queira falar;
  • manter contato e oferecer companhia ao longo do tempo, não apenas nos primeiros dias;
  • observar mudanças importantes de comportamento e funcionamento;
  • incentivar a procura de ajuda profissional quando o sofrimento estiver comprometendo significativamente a vida cotidiana ou houver sinais de risco.

Reconhecer a dor e viver o luto sem julgamento

Diante de uma perda por suicídio, muitas perguntas podem permanecer abertas. A pessoa enlutada não precisa necessariamente de alguém que explique o que aconteceu, mas de pessoas capazes de permanecer ao seu lado enquanto ela tenta reconstruir a vida em torno de uma ausência que passou a fazer parte de sua história.

Como lembra Louisanne, ter companhia nessa travessia pode tornar o processo “muito mais possível”. E isso começa pelo reconhecimento da dor: permitir falar, lembrar, sentir e viver o luto sem julgamento

Onde buscar ajuda

Quando o sofrimento psicológico é intenso ou persistente, é importante buscar atendimento adequado. Confira onde encontrar ajuda:

  • Mapa da saúde mental - Encontre locais de atendimento gratuito em saúde mental em diferentes regiões do Brasil. http://mapasaudemental.com.br
  • Mapa do acolhimento - Serviço de apoio para mulheres que estão passando por situações de violência. Oferece apoio psicológico e jurídico. http://mapadoacolhimento.org
  • CAPS - Centro de atenção psicossocial - Serviço público de saúde mental do SUS. Oferece acolhimento, acompanhamento e cuidado para pessoas em sofrimento psíquico, inclusive em situações de crise. Procure o CAPS de referência da sua região.
  • PA/Pronto-socorro psiquiátrico - Serviço de urgência especializado em saúde mental para situações de crise que precisam de avaliação e atendimento presencial imediato.
  • UPA 24h - Unidade de Pronto Atendimento do SUS disponível 24 horas para situações de urgência e emergência. Em uma situação de crise, procure a UPA mais próxima.
  • SAMU-192 - Em situações de emergência ou quando houver risco imediato à integridade física, ligue 192.
  • Corpo de bombeiros - 193 - Em situações de emergência que exijam intervenção imediata para garantir a segurança da pessoa, ligue 193.
  • CVV-188 - O CVV oferece apoio emocional e escuta por meio de voluntários, 24 horas por dia, pelo telefone 188.
    O CVV não é um serviço de emergência. Em situações de risco imediato, procure um serviço de emergência ou ligue 192.
  • Espaço Amarelo - Clínica especializada em prevenção do suicídio e portal de informações sobre saúde mental, com atendimento psicológico, orientação familiar, direcionamento e supervisão para profissionais. Atendimento em português e inglês.
Instagram: @espaco_amarelo | WhatsApp: (71) 9 9996-9191

Aqui, você não está só é a mensagem central da campanha de Setembro Amarelo do Instituto de Longevidade MAG, que reúne cartilha de acolhimento, consultas psicológicas gratuitas e um webinar especializado para falar sobre saúde mental, cuidado e prevenção ao suicídio. Participe!


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