Em vigor desde o dia 21 de março, o crédito consignado privado, também batizado de Crédito do Trabalhador, tem sido bastante tratado na mídia e celebrado por quem anda precisando pegar empréstimo. Entretanto, especialistas recomendam atenção redobrada no uso para que não haja prejuízo nas finanças. O problema é que esse tipo de crédito pode representar uma armadilha para muitos trabalhadores.

Para a educadora financeira Gilmara Gonzalez, o consignado não deve ser visto como solução para dificuldades financeiras. Ela acredita que no caso do consignado privado, os riscos são maiores. "O consignado é de longe o pior tipo de empréstimo que alguém poderia ter. Ele tem prazos longos demais, tira parte do seu poder aquisitivo e é muito difícil de eliminar", explica.

Segundo a especialista, o consignado privado pode ser ainda mais perigoso, pois trata-se de um empréstimo vinculado ao emprego, mas sem que haja garantia do mesmo. "Ou seja, caso seja demitida, a pessoa poderá ficar sem indenização. E, ainda assim, não se livrará da dívida", alerta ela, ressaltando que os cuidados com o crédito consignado privado precisam ser amplamente conhecidos para que seu uso seja consciente.

O planejador financeiro Thiago Martello tem opinião similar. "Juros bons são os juros que a pessoa recebe, não os que ela paga. Quando é preciso recorrer ao crédito, com exceção de situações emergenciais, significa que algo está errado no planejamento financeiro. Neste caso, tomar o crédito não significa que o problema será resolvido, muito pelo contrário", diz.

Martello ressalta que, quando se trata de um consignado, a pessoa não tem sequer a opção de não pagar ou negociar, pois o valor já é retirado do que recebe mensalmente. "Ou seja, a receita mensal vai diminuir enquanto o empréstimo estiver sendo pago. Outro ponto é que, se perder o emprego, ainda pode ficar sem parte dos direitos trabalhistas", explica.

Crédito consignado privado pode ser uma armadilhaCrédito: Alexander Musuc/Shutterstock

FGTS e multas rescisórias como garantia

O fato da nova modalidade permitir que os trabalhadores utilizem o saldo do FGTS e as multas rescisórias como garantia tem sido alvo de críticas. "É uma armadilha financeira. Imagine que eu tenha um dinheiro que é seu (FGTS) guardado comigo, mas você não pode usar. No entanto, como você está precisando muito desse dinheiro que é seu, eu vou te emprestar o seu próprio dinheiro e você me pagará com juros e garantias. Ou seja, pagará mais que o dobro do valor que já era seu", explica Gilmara.

Segundo declarações do ministro em exercício do Trabalho e Emprego, Francisco Macena, o crédito consignado privado precisa ser utilizado com cautela. Ele recomenda que os trabalhadores aguardem um número maior de instituições financeiras apresentarem suas ofertas antes de tomar uma decisão. "Os trabalhadores estão buscando recuperar sua saúde financeira trocando opções mais caras, como o crédito rotativo do cartão, por alternativas mais acessíveis", afirmou em nota distribuída pelo ministério.

É preciso comparar as taxas oferecidas

Não é novidade que, no cenário atual, com juros nas alturas e inflação crescente, pegar crédito emprestado tem sido algo cada vez mais difícil e caro. Com isso, modalidades como o consignado privado acabam sendo uma alternativa. Entretanto, é preciso olhar para os prós e contras. "O ideal é a pessoa entender o que aconteceu até o momento da tomada de crédito para que pare de depender dele. Trata-se de um remédio, não de uma cura para as finanças do tomador. É preciso investir em educação financeira", avalia Martello.

Para a educadora financeira Isolda Carlos, é preciso considerar as taxas oferecidas no crédito consignado privado. "Ele está sendo ofertado com taxas de Juros a de 1,6% a 3% ao mês. Levando em consideração que seja 3% o cálculo e você precise tirar um empréstimo de 4 mil reais, você pagará ao final algo em torno de 15 mil reais. Para o trabalhador CLT pode ser atrativo, porém se não houver planejamento e não houver educação financeira, de nada adiantará contrair esta dívida", alerta, 

Cuidados com o crédito consignado privado incluem planejamento das finanças

Para aqueles que estão considerando aderir ao Crédito do Trabalhador, Gilmara orienta que o primeiro passo é fazer um levantamento detalhado das finanças pessoais. "Antes de qualquer coisa, é essencial listar todas as entradas e saídas, verificar dívidas existentes e avaliar se há outra forma de ajuste financeiro. Somente após essa análise, se não houver outra alternativa, o trabalhador pode decidir se realmente precisa desse empréstimo", afirma.

Além disso, a especialista destaca a importância de promover educação financeira dentro das empresas. "Vivemos em um país com quase nenhuma educação financeira e uma cultura de endividamento muito grande. Precisamos urgentemente mudar essa mentalidade, levando o planejamento financeiro desde a infância até os mais idosos. Neste momento, é essencial levar esse conhecimento para dentro das empresas para que os funcionários não caiam na armadilha do 'crédito fácil e barato', que no final das contas pode sair muito caro", avalia.

Análise do contrato é fundamental

Isolda Carlos reforça que é necessário haver um olhar atento ao contrair um empréstimo como esse. "É preciso realizar um bom planejamento e procurar conhecimento através da educação financeira para entender que não é empréstimo que vai salvar a vida de quem está endividado, e sim organização mediante planejamento financeiro", orienta.

A especialista alerta que qualquer empréstimo deve ser analisado em sua totalidade, considerando prazo, valor solicitado, valor liberado e até seguros. "Se o cliente identificar seguros abusivos no contrato, deverá procurar o banco e formalizar a reclamação na Ouvidoria, SAC ou Fale conosco. Caso não consiga o estorno, o PROCON deverá ser acionado", explica.

Até aqui, segundo relatório da Dataprev divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o crédito consignado privado já movimentou pelo menos R$ 1,28 bilhão em empréstimos. O valor médio de empréstimo por trabalhador foi de R$ 6.623,48. 


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