Outro dia fui tomar um café. Pedi um pedaço de bolo que me apeteceu sem perguntar o preço. Fiz isso porque sabia que poderia pagar. Na mesa, comentei com meu marido: toda mulher deveria poder, ao menos de vez em quando, comprar um pedaço de bolo sem precisar olhar o valor antes. Parece banal. Mas não é. E no mês das mulheres precisamos falar sobre isso.
Ao longo da minha trajetória como jornalista cobrindo educação financeira há quase 25 anos, já ouvi muitas histórias de mulheres que precisavam pedir dinheiro ao companheiro para comprar até mesmo uma calcinha. E, se o dito cujo não entendesse casamento como parceria, o dinheiro simplesmente não vinha. Liberdade financeira não é sobre luxo. É sobre dignidade e poder de escolha.
Cresci estimulada a buscar independência financeira por minha mãe, que não fez o mesmo e se arrependeu. Tive oportunidade de estudar; e estudei não apenas sobre dinheiro, mas sobre comportamento, crenças e traumas que influenciam nossa relação com ele. Acredito que quando uma mulher sabe fazer e cuidar do próprio dinheiro, ela amplia caminhos. Pode decidir se permanece em um trabalho ruim; se sai de um relacionamento que a machuca ou se ajuda alguém porque quer e não porque precisa pedir autorização. E mesmo mulheres que têm companheiros parceiros precisam saber lidar com as próprias finanças. Parceria não substitui autonomia.
Educação financeira também é sobrevivência e futuro
Em 2025, uma pesquisa do Observatório da Mulher contra a Violência em parceria com o Instituto DataSenado, mostrou que 6% das mulheres que sofrem violência não denunciam o agressor pela razão principal de depender financeiramente dele. Outra pesquisa do mesmo Instituto, de 2024, focou em violência doméstica contra mulheres negras e mostrou que 66% das que sofriam não possuíam renda ou tinham renda insuficiente, sendo que 85% delas tinham que conviver com o agressor. Ou seja, quando falamos em educação financeira para mulheres, também estamos falando de sobrevivência, estrutura e futuro.
Outro ponto é que mulheres costumam ter um perfil mais cuidador e, muitas vezes, deixam de poupar para o próprio futuro porque estão sempre pensando mais nos outros do que em si mesmas. Não faz muito tempo ouvi uma entrevista em que o economista Rogério Nagamine, do IPEA, alertava que seis em cada dez mulheres em idade tradicional de trabalho não estavam contribuindo para a Previdência. Na maior parte das vezes, segundo ele, porque estariam fora do mercado formal, dedicadas ao cuidado de crianças, idosos ou à gestão da casa.
E também é preciso mencionar as mães solo! Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas apontou que o número de mulheres que criam filhos sozinhas no Brasil era de 11 milhões em 2022, 72% delas sem rede de apoio. Em grande parte dos casos, enfrentando múltiplas jornadas de trabalho e dificuldade para conciliar a criação dos filhos com a necessidade de gerar renda.
É o caso de minha irmã, que precisou se reconstruir do zero após a separação sem qualquer ajuda. E de minha sogra, que vendia sorvetes pelas ruas de Ribeirão Preto, empurrando um carrinho pesado com duas crianças pequenas para sustentar. Essas histórias não são exceção. Elas são parte de uma realidade estrutural.
No mês das mulheres, é preciso tratar de autorresponsabilidade
No mundo ideal, haveria políticas públicas suficientes e investimento privado generoso olhando com carinho para essa realidade. No mundo real, é preciso que cada mulher, da maneira que lhe é possível, também passe a cuidar do próprio futuro financeiro com mais atenção. Que aprenda a gerar renda extra se preciso, que se qualifique sempre que possível, gaste com mais consciência, invista para fazer o dinheiro crescer e também entenda pequenas e importantes ações, como ter um seguro de vida.
Muitas não têm sequer oportunidade de olhar para isso, já que a realidade é muito mais complexa do que gostaríamos. Mas se você está lendo esse artigo, se tem acesso à informação, acredite, já está em posição favorável.
E quando começamos a envelhecer é natural fazermos retrospectivas. Quem investe em saúde tende a colher mais saúde. Quem investe em relacionamentos tende a colher vínculos. Quem investe em educação financeira tende a colher mais autonomia. Tudo o que teremos aos 60, 70, 80 ou 100 anos depende do que começamos a cultivar antes!
Anos atrás havia menos informação. Hoje ela está mais disponível. O cenário pode ser desafiador, mas a decisão de aprender, organizar e planejar continua sendo pessoal. A liberdade começa quando decidimos que envelhecer com dignidade e escolha não será apenas uma questão de sorte, será também uma construção diária dentro daquilo que nos cabe.
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