Dados da Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que a depressão após os 60 é mais comum do que se imagina. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, cerca de 13% das pessoas entre 60 e 64 anos têm diagnóstico da doença, sendo essa a faixa etária proporcionalmente mais afetada no país .
De acordo com o psicólogo Filipe Colombini, isso acontece porque sintomas de depressão são frequentemente confundidos com o próprio envelhecimento. “Um erro comum é psicologizar a idade, como se envelhecer significasse automaticamente ficar triste, isolado ou perder o prazer pela vida. Isso tem muito mais a ver com etarismo do que com ciência. Idade não é diagnóstico", alerta.
Imagem: Lee Charlie/Shutterstock
Envelhecer não é sinônimo de adoecer
Embora o envelhecimento traga mudanças reais, como alterações no sono, na disposição física, na alimentação e até na rede social, isso não deve ser confundido com doença. “Há perdas reais. Mas isso faz parte do desenvolvimento humano, não é sinônimo de depressão", diz Filipe.
O especialista reforça que o idoso continua sendo um sujeito ativo. “O idoso continua sendo uma pessoa em desenvolvimento. Continua tendo interesses, vínculos, motivadores, capacidade de aprender e se relacionar".
O problema começa quando sintomas importantes são normalizados. Ou seja, quando tristeza passa a ser vista como algo ‘normal da idade’, havendo do risco de deixar quadros depressivos reais sem diagnóstico e sem tratamento.
Por que a depressão após os 60 ainda é subdiagnosticada?
Apesar da alta incidência, o diagnóstico da depressão após os 60 ainda enfrenta barreiras culturais e sociais. Segundo especialistas ouvidos pelo Universidade de São Paulo, fatores como abandono familiar e sentimento de inutilidade estão entre os principais gatilhos da depressão na velhice .
Esses elementos se conectam diretamente com o que Colombini chama de invalidação social do idoso. “Se o idoso já é tratado como alguém ‘naturalmente’ fragilizado, por que investigar um transtorno específico? Essa lógica é perigosa, porque normaliza sofrimento clínico.”
Como diferenciar tristeza de depressão após os 60
A diferença, segundo Colombini, está nos critérios clínicos e não na idade. “Depressão envolve mudança significativa de padrão: perda persistente de interesse pelo que antes era prazeroso, isolamento que ultrapassa uma simples redução de rotina, alterações intensas e frequentes no sono e na alimentação, irritabilidade ou apatia marcantes", explica.
Esses sinais também aparecem em estudos clínicos, que apontam sintomas como:
- Perda de apetite
- Alterações no sono
- Desânimo
- Mudanças emocionais persistentes
Mas o ponto central continua sendo o impacto na vida. “Não é a idade que define. É a intensidade, a frequência, o contexto e o impacto funcional", avalia o psicólogo.
E se a depressão pode ser confundida com “tristeza normal”, a ansiedade costuma ser ainda mais silenciosa. Isso ajuda a explicar por que tantos casos não são identificados, mesmo com alta prevalência na população. “Existe uma cultura que silencia o sofrimento emocional do idoso".
O peso do estigma e do etarismo
Um dos principais motivos para o subdiagnóstico está na forma como a sociedade enxerga o envelhecimento, associando-o à perda, improdutividade e declínio.
Esse cenário ajuda a explicar por que, mesmo sendo o grupo mais afetado pela depressão no Brasil, muitos idosos ainda não recebem diagnóstico ou tratamento adequado.
Outro fator que dificulta o diagnóstico é a forma como os sintomas surgem. “Existe uma tendência de os sintomas em idosos aparecerem de forma mascarada", diz Filipe.
Muitas vezes, o sofrimento emocional se manifesta como sintomas físicos, como dores difusas, mal-estar persistente, preocupações corporais excessivas.
Além disso, alterações cognitivas, como falhas de memória e dificuldade de concentração, também podem confundir o diagnóstico, já que aparecem em outras doenças comuns da idade .
Mudanças reais do envelhecimento e seus impactos emocionais
O envelhecimento traz experiências que impactam diretamente a saúde mental. Entre eles: lutos mais frequentes, doenças entre pares, mudanças no corpo e maior contato com a finitude. Lidar com a ideia de que a vida tem um ciclo deixa de ser uma abstração e se torna algo concreto.
Além disso, a falta de atividades sociais e de vínculos pode agravar o quadro.“A falta de atividades sociais, hobbies e lazer abre terreno propício para o desenvolvimento de depressão e ansiedade", alerta o especialista.
O alerta final resume o desafio de entender que depressão e ansiedade após os 60 não são ‘normais da idade’. São condições clínicas que exigem avaliação técnica. “Se não rompemos com o estereótipo, continuaremos subdiagnosticando sofrimento grave", conclui Filipe.
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