Mudar de carreira após os 50 é o sonho de muitas pessoas. Mas por que será que o desejo de seguir por um novo caminho é tão comum nessa fase da vida? E como lidar com o medo dos desafios e aproveitar toda a experiência adquirida? Conversamos sobre o assunto com a psicóloga Selma Rodarte, especialista em orientação vocacional e escolhas profissionais. Confira a entrevista!

psicologia Selma Rodarte fala sobre mudar de carreira após os 50Foto: divulgação

O que costuma motivar quem deseja mudar de carreira após os 50? 

A motivação para mudar de carreira após os 50 costuma nascer de um processo profundo de reflexão sobre propósito. Após décadas dedicadas a uma mesma área ou rotina, muitas pessoas sentem o desejo de alinhar seu trabalho a atividades mais significativas, que proporcionem satisfação pessoal, flexibilidade e maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Em tempo: segundo levantamento do Sebrae, 13,3% dos novos negócios abertos no país no ano passado foram criados pelos 50+.

Mudanças familiares, como a saída dos filhos de casa, também podem despertar a vontade de explorar uma "segunda vida produtiva". Mas não podemos esquecer que a busca por melhores rendimentos e condições financeiras também é um fator crucial desse movimento, assim como o etarismo no mundo corporativo, que acaba limitando oportunidades.

Em termos emocionais, observo um padrão de maior consciência e maturidade: é um público que chega com clareza sobre o que não quer mais e com disposição para construir algo alinhado aos próprios valores.

Quais são os principais medos ou crenças que impedem a pessoa 50+ de iniciar uma transição profissional? E como trabalhar esses bloqueios?

Os medos mais frequentes envolvem a sensação de estar "velho demais para recomeçar", a crença de que o mercado privilegia apenas profissionais jovens, receios em relação às novas tecnologias e o temor de perder estabilidade financeira.

Ao longo do processo de orientação vocacional, esses bloqueios podem ser trabalhados com técnicas da terapia cognitivo-comportamental, que ajudam a identificar e ressignificar crenças limitantes, mediante uma análise concreta das demandas atuais do mercado.

Também promovemos o fortalecimento de competências socioemocionais, como autoconfiança, adaptabilidade e gestão da ansiedade, além de estruturar um plano progressivo para tornar o processo menos ameaçador.

Como diferenciar um “desejo de mudança” de um momento de esgotamento ou frustração com a carreira atual?

Este é um ponto fundamental que trabalhamos na terapia, como ponto de partida quando o assunto é transição de carreira. Quando existe o desejo genuíno de mudança, este costuma vir acompanhado de curiosidade, energia e projeção de futuro. Ou seja, mesmo que existam dúvidas, o que é natural, a pessoa consegue imaginar novos caminhos, percebe coerência entre seus valores e a direção que gostaria de seguir e, sobretudo, demonstra disposição para planejar passos concretos.

Já o esgotamento ou frustração nasce como uma resposta a um contexto desgastante: excesso de demandas, relações difíceis, falta de reconhecimento, ambiente tóxico ou sensação contínua de ineficiência.

Clinicamente, utilizamos escalas como o Inventário de Burnout de Maslach para identificar a Síndrome de Burnout - um estado de esgotamento físico, emocional e mental causado pelo estresse crônico no trabalho. Esta síndrome se manifesta por meio de três dimensões: exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal.

Nesses casos, o movimento não é de ir em direção a algo melhor, mas sim de fugir do sofrimento atual. A pessoa não deseja uma nova carreira, mas sim, alívio. Ela tende a apresentar sinais emocionais e físicos de burnout, como irritabilidade, cansaço extremo, queda de produtividade e dificuldade na tomada de decisões.

Por isso, antes de qualquer transição, é essencial avaliar: "Estou indo em direção a algo que faz sentido ou apenas tentando escapar da exaustão?" Quando identificamos o segundo caso, o mais indicado é tratar primeiro o esgotamento, com ajustes no trabalho, estratégias de autocuidado e, muitas vezes, psicoterapia, para que qualquer mudança seja tomada com clareza e não como uma resposta impulsiva à dor.

Quais ferramentas ou métodos você utiliza para ajudar a identificar novas possibilidades de atuação?

É possível combinar avaliações estruturadas e exploração prática. Entre as ferramentas, estão inventários de interesses, valores e perfis comportamentais, além de análises de competências transferíveis;a  linha do tempo da carreira, que ajuda a identificar padrões de satisfação e talentos naturais, também é bastante útil nesse processo.  Especificamente, utilizo o modelo RIASEC de Holland para mapeamento vocacional e técnicas narrativas para reconstrução da identidade profissional.

Essa investigação é complementada por pesquisas atualizadas do mercado e por conversas exploratórias sobre novas modalidades de trabalho, como consultorias, atividades híbridas, projetos independentes e áreas em expansão.

Como lidar com o impacto emocional da sensação de “começar do zero” aos 50+?

Uma das primeiras etapas é desconstruir a ideia de que alguém começa do zero nessa fase da vida. Aos 50, o indivíduo carrega uma bagagem valiosa de experiências, relações e habilidades. O que propomos é um “recomeço com história”, não um reinício absoluto. 

O trabalho emocional envolve resgatar conquistas, fortalecer a autoestima e construir uma narrativa profissional coerente com essa maturidade. Também estimulo pequenas ações exploratórias, que geram vitórias rápidas e ajudam a reduzir a ansiedade. Ter uma rede de apoio - familiar, social ou profissional - faz muita diferença nesse momento.

A maturidade pode ser transformada em vantagem?

Com certeza. A maturidade traz repertório emocional, tomada de decisão mais sólida, melhor comunicação, ética consistente e grande capacidade de resolver problemas complexos. São características extremamente valorizadas em equipes diversas e ambientes que exigem estabilidade.

Vemos cada vez mais programas e iniciativas corporativas voltadas à inclusão de profissionais experientes, tanto pela busca por diversidade etária quanto pela necessidade de perfis mais maduros em posições estratégicas. Quando bem comunicada, essa bagagem se torna um diferencial competitivo.

E mais: a neurociência confirma que o cérebro maduro possui maior capacidade de integração e tomada de decisões complexas

Mudar de carreira após os 50 requer considerar aspectos financeiros, familiares e até de saúde. Como integrar esses elementos em um plano realista e sustentável?

Recomendo o modelo dos "três pilares": estabilidade financeira, harmonia familiar e preservação da saúde física e mental. Do ponto de vista financeiro, é preciso fazer projeções de renda, análise de reserva e, quando necessário, construir um período de transição gradual para minimizar riscos. No campo familiar, é saudável promover conversas sobre expectativas e impacto na rotina, especialmente quando há dependência financeira ou mudanças no estilo de vida. E, no aspecto da saúde, avaliamos a energia disponível, necessidades de autocuidado e limites físicos ou emocionais. Quando todos esses elementos são alinhados, a transição se torna mais segura e sustentável.

Como a pessoa pode avaliar se precisa de um curso, uma certificação, ou se já tem competências transferíveis suficientes para migrar de área?

O ponto de partida é entender o que o mercado exige para a função desejada. Isso é feito analisando descrições reais de vagas, competências centrais e habilidades técnicas obrigatórias. Muitas vezes, lacunas simples são preenchidas com cursos curtos; certificações só são essenciais em áreas técnicas ou reguladas.

É comum que o profissional 50+ descubra que já possui uma base muito sólida; na realidade, só precisa reorganizar experiências e comunicar melhor seu potencial.

Que conselhos você daria para quem está se sentindo perdido, mas sente um chamado interno para fazer algo novo, mesmo sem saber por onde começar?

O primeiro passo para quem deseja mudar de carreira após os 50 é acolher esse chamado sem pressa e sem autocobrança. É importante iniciar um processo de autoconhecimento estruturado, revisitando interesses, valores e talentos naturais. A partir disso, recomendo pequenos experimentos: cursos introdutórios, conversas com profissionais da área desejada, participação em grupos, atividades voluntárias. Isso porque o conceito de "experimentação segura" permite testar caminhos sem comprometer a estabilidade atual. 

Construir um plano por etapas traz clareza e segurança. E, sobretudo, buscar orientação profissional pode ajudar a transformar essa inquietação em direção. A maturidade oferece um terreno fértil para escolhas mais conscientes e alinhadas ao que realmente importa!


Já pensou em ter acesso a cursos de requalificação e educação financeira, amparo jurídico e vários outros benefícios? É só se associar ao Programa ViverMais!

Leia também:

Aliesh Costa: executiva de RH trata de transição de carreira após os 50

Carreira profissional após os 50 anos: saiba como atualizar o seu currículo

Guia de Transição de Carreira mostra como recomeçar profissionalmente após os 45 anos

Compartilhe com seus amigos

Receba os conteúdos do Instituto de Longevidade em seu e-mail. Inscreva-se: