Adotar alguns hábitos que retardam declínio cognitivo pode fazer diferença para pessoas mais velhas com maior risco de demência. Um estudo realizado em 11 países da América Latina, incluindo o Brasil, mostrou que uma combinação de mudanças no estilo de vida melhorou a função cognitiva de idosos.

Publicado na revista científica The Lancet, o trabalho acompanhou 1.065 pessoas durante dois anos. Os participantes tinham entre 60 e 77 anos, apresentavam fatores de risco para demência e tinham desempenho cognitivo abaixo do esperado para a idade.

O estudo, chamado Latam-Fingers, avaliou uma estratégia baseada em cinco frentes. São elas atividade física, alimentação saudável, controle dos fatores de risco cardiovasculares, treinamento cognitivo e socialização.

5 hábitos que retardam declínio cognitivo

Os participantes foram divididos em dois grupos. Um deles recebeu orientações gerais sobre hábitos saudáveis. O outro grupo participou de um programa estruturado durante dois anos, com a intervenção das 5 estratégias. Esse segundo grupoapresentou melhora cognitiva 55% maior que o que recebeu apenas orientações.

Os benefícios apareceram em diferentes capacidades. Entre elas estavam memória episódica, atenção e funções executivas, habilidades que estão relacionadas ao planejamento, à organização e à tomada de decisões.

Para os pesquisadores, os resultados reforçam que a prevenção da demência não depende de uma única mudança. A combinação de diferentes comportamentos pode atuar sobre vários fatores associados ao envelhecimento cerebral.

Confira os 5 hábitos que retardam declínio cognitivo abaixo!

1. Prática de atividade física

A prática regular de exercícios foi uma das frentes trabalhadas no programa. As atividades também foram realizadas em grupo entre os participantes brasileiros. Além de contribuir para a saúde cardiovascular, o exercício integra uma estratégia mais ampla de proteção da função cognitiva.

2. Alimentação saudável

A alimentação também fez parte do programa e as recomendações foram adaptadas à realidade dos países participantes. Em Belo Horizonte, por exemplo, os pesquisadores consideraram os hábitos alimentares locais.

Além disso, as orientações também levaram em conta dificuldades de acesso a determinados alimentos, como peixes. A proposta foi adaptar as recomendações para que fossem mais viáveis no cotidiano dos participantes.

3. Controle dos fatores de risco cardiovasculares

O controle da saúde cardiovascular foi outro componente da intervenção. Hipertensão, diabetes e colesterol elevado estão entre os fatores associados ao risco de comprometimento cognitivo.

A proposta, no entanto, não ficou restrita ao cérebro. O programa também buscou melhorar condições que afetam a saúde dos vasos sanguíneos e podem influenciar o funcionamento cerebral.

“Não se trata de recomendar isoladamente que a pessoa faça exercício ou tenha uma alimentação melhor. O que demonstramos é que o efeito aparece quando os cinco pilares são trabalhados simultaneamente”, afirmou o neurologista Paulo Caramelli, professor da Faculdade de Medicina da UFMG e um dos coordenadores brasileiros da pesquisa.

Segundo o especialista, a prevenção precisa considerar que diferentes processos podem contribuir para o surgimento da demência.

“Mesmo que no futuro exista um medicamento capaz de curar a doença de Alzheimer, o problema da demência continuará existindo, porque muitos idosos apresentam mais de uma causa para o comprometimento cognitivo”, disse em entrevista à Folha de S. Paulo.

4. Estímulo cognitivo

O treinamento cognitivo completou a estratégia, já que as atividades buscaram estimular diferentes habilidades mentais durante o acompanhamento.

Os ganhos observados na pesquisa envolveram memória episódica, atenção e funções executivas. Essas capacidades são importantes para tarefas do dia a dia, como organizar atividades, planejar e tomar decisões.

5. Socialização

A socialização foi o quinto componente do programa. No Brasil, as atividades coletivas tiveram boa aceitação entre os participantes.

A combinação dessas práticas forma o conjunto dos principais hábitos que retardam declínio cognitivo avaliados pela pesquisa. Contudo, é preciso considerar que o objetivo não é impedir completamente a demência. A proposta é reduzir fatores de risco e retardar possíveis perdas cognitivas.

Um grupo de idosos socializando, que é um dos hábitos que retardam declínio cognitivo. Crédito: Halfpoint/Shutterstock

A geriatra Claudia Kimie Suemoto, professora da Faculdade de Medicina da USP e integrante do comitê executivo do estudo, destacou a dimensão do benefício observado. “O efeito observado foi quase três vezes maior do que o encontrado em estudos semelhantes realizados em outros países,” disse também à Folha.

A adesão ao programa também chamou atenção. Mais de 82% dos participantes completaram os dois anos de acompanhamento. Entre aqueles que participaram da intervenção, a adesão média chegou a 72% das atividades propostas. Foram registrados eventos adversos, principalmente dores musculoesqueléticas relacionadas aos exercícios, mas nenhum evento grave ou morte foi atribuído à intervenção.

Estratégia adaptada à realidade da América Latina

O Latam-Fingers adapta para a América Latina um modelo desenvolvido originalmente na Finlândia. A pesquisa buscou avaliar se a abordagem poderia funcionar em países de média renda. Para os autores, essa adaptação é relevante diante das desigualdades sociais da região.

Também pesam fatores como acesso limitado à prevenção e doenças cardiovasculares sem controle adequado. “Isso faz com que nossa janela de oportunidade para prevenção seja enorme”, afirmou Caramelli.

Demência ainda é subdiagnosticada no Brasil

Os resultados ganham relevância diante do avanço da demência no país. Isso porque estima-se que 2,46 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais vivam com algum tipo da condição e a projeção é de quase triplicar esse número até 2050. O envelhecimento acelerado da população contribui para esse cenário.

Outro desafio é o diagnóstico tardio. Segundo pesquisas coordenadas por Caramelli, cerca de 80% das pessoas com demência no Brasil não recebem diagnóstico formal. “Muitas famílias ainda confundem os primeiros sintomas com o envelhecimento normal e só procuram atendimento quando a doença já está em estágio moderado ou avançado”, afirmou o neurologista.

Os pesquisadores defendem que a prevenção passe a fazer parte da atenção primária e a ideia é integrar os hábitos que retardam declínio cognitivo ao cuidado de condições como hipertensão, diabetes e depressão.

O próximo passo será avaliar a aplicação da estratégia nas unidades básicas de saúde, com os participantes ainda sendo acompanhados por mais quatro anos. O objetivo é verificar se os hábitos adquiridos permanecem após o fim do acompanhamento intensivo. A equipe também pretende observar se os benefícios cognitivos continuam ao longo do tempo.


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