A busca pela longevidade saudável se tornou o "Santo Graal" da medicina moderna. Essa procura movimentando bilhões de dólares em suplementos, terapias experimentais e promessas de rejuvenescimento.
No entanto, para o renomado cardiologista americano Eric Topol, vice-presidente do Scripps Research e um dos pesquisadores mais citados do mundo, o cenário atual é de um "faroeste biológico".
Em seu novo livro, Super Agers, lançado recentemente no Brasil, Topol utiliza o rigor da genômica e da inteligência artificial para separar o que é evidência científica do que é pura ficção comercial.
A mensagem central é clara: viver muito não é o mesmo que viver bem. Além disso, o segredo para envelhecer com qualidade não está necessariamente escrito no seu DNA herdado. Por outro lado, está na forma como você gerencia sua biologia ao longo das décadas.
Desmistificando a herança genética
Um dos maiores alívios, e também surpresas, trazidos pela pesquisa de Topol é a desconstrução do determinismo genético.
Muitas pessoas vivem sob a sombra de históricos familiares pesados. Eles acreditam que mortes precoces de pais e avós por doenças cardiovasculares ou câncer são sentenças irrecorríveis.
O estudo com os chamados "Super Agers" (indivíduos de 80 ou 90 anos sem doenças crônicas) mostra que a realidade é bem mais flexível. Em entrevista ao Estadão, o cardiologista apontou que "a maioria das pessoas pensa que seu destino está ligado à saúde dos pais. Está errado. Completamente errado. [...] Descobrimos que a expectativa de vida saudável está menos relacionada aos genes e mais ao funcionamento do nosso sistema imunológico ao longo da vida".
Essa mudança de paradigma tira o foco da genética (estudo de genes isolados) para a genômica (o conjunto completo de genes e suas interações com o ambiente). Para Topol, o sistema imunológico funciona como o verdadeiro sentinela da vida.
Quando ele perde a capacidade de autorregulação, acontem os problemas. É nesse momento que surgem as inflamações sistêmicas que pavimentam o caminho para o Alzheimer e o entupimento de artérias.
Portanto, a liberdade em relação ao passado familiar vem da capacidade de modular esse sistema. Principalmente por meio de escolhas conscientes e intervenções precisas.
Estilo de vida e longevidade saudável estão relacionados
Se o tripé "dieta, exercício e sono" já é de conhecimento comum, Topol propõe uma expansão desse conceito. Ele chama essa concepção de "Estilo de Vida+".
A longevidade saudável moderna exige que olhemos para fatores que antes eram ignorados pela medicina tradicional. O impacto do ambiente invisível e as conexões sociais profundas são exemplos de fatores que devem ser considerados atualmente.
Um dos pontos mais alarmantes levantados pelo cardiologista é a onipresença de micro e nanoplásticos. Diferente de outros poluentes, essas partículas infiltram-se nos tecidos humanos, gerando inflamações graves.
Topol cita estudos em sua área, a cardiologia, onde plásticos encontrados nas carótidas elevaram em quase cinco vezes o risco de infarto ou AVC. Para ele, lutar por um envelhecimento de qualidade é também uma questão política e comunitária. Isso porque muitos desses perigos ambientais estão fora do controle individual.
Além disso, a saúde mental e social ganha um peso biológico mensurável. A solidão é um acelerador do envelhecimento tão potente quanto o tabagismo.
Contudo, o médico faz uma ressalva curiosa sobre o círculo social. Para ele, a qualidade das interações importa mais que a quantidade. Se as relações forem tóxicas, o isolamento pode ser a opção mais saudável para as células.
Crédito: Pablo Echazarreta/Shutterstock
A inteligência artificial como aliada do rejuvenescimento
Como entusiasta da tecnologia, Eric Topol acredita que não alcançaremos a longevidade saudável em massa apenas com mudanças de hábitos.
A complexidade do corpo humano exige uma análise de dados. Cenário esse que o cérebro médico, isoladamente, não consegue processar. É aqui que entra a Inteligência Artificial (IA) multimodal.
A IA é capaz de integrar dados do genoma, proteômica (proteínas), microbioma e até exames de retina para criar um "relógio biológico" de cada órgão. Isso permite que a medicina deixe de ser reativa e passe a ser preditiva. Em entrevista disse:
"Posso dizer qual órgão está apresentando sinais de envelhecimento acelerado em qualquer pessoa.
Também temos biomarcadores sanguíneos como a p-tau217 (proteína tau fosforilada na posição 217), que nos diz com 20 anos de antecedência se temos risco de desenvolver Alzheimer. São dados que nunca tivemos antes. Se não temos capacidade humana para analisar todos eles, temos a chamada IA multimodal para integrá-los e, assim, identificar quem está em alto risco."
Entretanto, o tecno-otimismo de Topol é acompanhado de cautela. Ele se posiciona contra o "escaneamento" indiscriminado de corpo inteiro por ressonância magnética em pessoas saudáveis. Para o especialista, isso é como uma "receita para falsos positivos" que gera ansiedade e procedimentos invasivos desnecessários.
A tecnologia deve ser usada para monitorar riscos específicos, não para caçar doenças onde elas ainda não existem.
O combate à indústria da ficção científica
Um dos trechos mais enfáticos da entrevista de Topol diz respeito à exploração comercial do medo de envelhecer. O mercado de suplementos e clínicas de "biohacking" frequentemente opera em uma zona cinzenta. A promessa é de reversão da idade biológica sem o devido respaldo de ensaios clínicos humanos.
"Todo mundo está escrevendo e falando sobre longevidade, mas muita coisa é pura ficção. Influenciadores que dão crédito a suplementos que prometem prolongar a vida, essas coisas sem nenhum embasamento científico, usadas de forma predatória para ganhar dinheiro às custas das pessoas. [...] O problema é que as pessoas são muito suscetíveis porque querem viver uma vida longa e saudável", relatou o cardiologista.
Topol alerta que a ideia de reverter o envelhecimento em humanos ainda não é uma realidade comprovada. Isso é apenas uma promessa em modelos animais, como testes em ratos.
Ele aponta um dilema biológico perigoso. Os mesmos mecanismos que podem "rejuvenescer" uma célula podem, acidentalmente, ativar o crescimento de tumores.
Portanto, o foco da longevidade saudável deve ser estender a "janela de saúde" (healthspan), que é o tempo que vivemos livres de doenças. Não deve ser apenas sobre o número de anos cronológicos (lifespan).
Sono: a faxina cerebral obrigatória
Para quem busca a longevidade saudável, o sono não é um luxo. Ele é um processo fisiológico de desintoxicação necessário. Topol descreve uma "epidemia silenciosa" de privação de sono causada pelo estresse e pelo uso excessivo de telas.
Durante o sono profundo, o cérebro elimina metabólitos tóxicos. Sem essa limpeza, o sistema imunológico entra em colapso, predispondo o indivíduo a doenças neurodegenerativas e inflamações sistêmicas.
A recomendação do cardiologista é pragmática. É preciso ter consistência de horários e redução radical do álcool, que interrompe os ciclos de sono profundo.
Para os nativos digitais da Geração Z, o desafio é ainda maior. Isso porque a exposição constante à luz azul e à ansiedade digital pode estar acelerando o envelhecimento biológico de uma forma que a ciência ainda está começando a medir.
Novos medicamentos e a revolução dos GLP-1
O pesquisador também aborda o impacto de novas classes de medicamentos, como os agonistas de GLP-1 (as "canetas" para obesidade). Embora populares pela perda de peso, Topol enxerga neles um potencial anti-inflamatório que vai muito além da estética.
Ele observa que muitos dos benefícios cardiovasculares desses fármacos ocorrem independentemente da redução de gordura. Isso significa que possivelmente estamos diante de uma nova ferramenta de proteção sistêmica contra o envelhecimento das artérias e do cérebro.
Em última análise, a obra e as reflexões de Eric Topol servem como um guia de sobriedade em um mundo fascinado pela imortalidade. Para ele, a meta não é viver mil anos. Inclusive, ele classifica isso como "loucura biológica".
O importante é garantir que a segunda metade da nossa vida seja marcada pela vitalidade e pela autonomia, superando as limitações físicas que afligiram as gerações passadas.
A longevidade saudável é, portanto, uma construção ativa. Deve ser baseada em ciência de ponta, prevenção rigorosa e um profundo respeito pelo ritmo natural do corpo humano.
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