Por muito tempo, a lógica era simples. O seguro de vida era coisa de quem tinha filhos, cônjuge ou patrimônio para proteger. Essa equação está mudando. Hoje, o seguro de vida para jovens ganha espaço entre pessoas de 20 e poucos anos. É uma conversa para muitos ainda sem dependentes e em fase de construção da própria independência financeira. O motivo é diferente do que movia gerações anteriores. Não é o medo de morrer, é o medo de não poder trabalhar.

Sem carteira assinada, sem INSS robusto e sem plano de saúde corporativo, parte significativa desses jovens vem optando por apólices modulares. Essa escolha inclui coberturas voltadas a doenças graves, invalidez e telemedicina. A lógica não é imaginar a própria morte. É sobre reconhecer que um diagnóstico grave pode interromper a renda de uma hora para outra.

Seguro de vida para jovens: da proteção da família à proteção da renda

Os números confirmam essa mudança de comportamento. Segundo dados da Susep, o setor de seguro de vida registrou crescimento real de 12,35% em 2025. O Relatório Mundial de Seguro de Vida 2026, produzido por Capgemini e LIMRA, reforça a ideia. Ele mostra que 68% dos adultos com menos de 40 anos já reconhecem o seguro como essencial para a estabilidade financeira futura.

O dado mais revelador, porém, está no tipo de cobertura escolhida por esse público. Um levantamento da Azos aponta que em seguro de vida para jovens, 81% dos clientes entre 18 e 25 anos possuem planos com coberturas utilizáveis ainda em vida. Ou seja, planos que cobrem doenças graves, invalidez e telemedicina, e não coberturas voltadas exclusivamente à morte.

Esse comportamento está diretamente ligado a uma mudança demográfica maior. No Brasil, 52% dos jovens da Geração Z não têm planos imediatos de casamento. Outros 81% não planejam ter filhos no curto prazo, segundo o mesmo relatório. Família constituída e patrimônio acumulado já não engajam como antigamente. Os gatilhos tradicionais que levavam alguém a contratar um seguro deixaram de se aplicar a boa parte dessa geração.

Para Muhammad Gasel, que aos 28 anos passou por um estágio na Caixa Seguradora, tentou empreender com uma loja própria e rodou por concessionárias e financeiras até entender que vender seguro é, antes de tudo, construir relacionamento, a mudança de comportamento da Geração Z já é visível na prática.

Um jovem freelancer trabalhando com seu computador em um espaço de coworking. Crédito: Dusan Petkovic/Shutterstock

Viver é a melhor escolha

"Isso é a realidade. Meu público hoje é um público mais jovem, vai até seus 40 e poucos anos de idade. Hoje, dificilmente eu tenho clientes acima disso ou participo de reuniões e apresentações para esse público. Na maioria dos casos, eu observo o brilho no olhar dessas pessoas na parte da pausa temporária no trabalho, na parte de uma cirurgia, em uma doença grave. Ou seja, nos 'produtos INVIDA' para ser utilizado durante a vida", afirma Muhammad Gasel, especialista em seguros de vida.

Muhammad cita, inclusive, um serviço que a MAG Seguros oferece, que são os Seguros INVIDA, com coberturas que oferecem um suporte financeiro em caso de imprevisto com a saúde. Segundo o especialista, na perspectiva dos clientes, a realização de sonhos é o maior foco e qualquer imprevisibilidade pode atrapalhar esse objetivo. Nesse sentido, se prevenir é a melhor alternativa.

"Eles começaram a entender que: eu tenho tanto sonho, tanto objetivo, que eu sei que não é fácil chegar até lá, mas talvez seja possível de alguma forma. Só que tudo aquilo que vai minar minha capacidade de continuar trabalhando, ou que vai me parar por um período, vai fazer com que esse meu objetivo se distancie ainda mais."

A renda como o maior patrimônio dos 20 anos

Se antes o patrimônio a proteger era casa, carro ou herança para os filhos, agora o ativo mais valioso mudou. No início da vida adulta ele passa a ser a própria capacidade de trabalhar. Muitos permanecem mais tempo no mercado, adiando casamento e maternidade ou paternidade. Muitas vezes atuam cada vez mais como autônomos ou profissionais independentes. Nesse contexto, o seguro de vida para jovens se reposiciona como ferramenta de proteção de renda. Ou seja, não é apenas uma proteção familiar.

"Para esse público que não é CLT, que não possui os benefícios do INSS, a porta de entrada é a parte da pausa temporária do trabalho, mesmo não sendo para todas as profissões. É uma forma da gente conseguir captar o cliente. [Outra forma] é a parte de cirurgias. Não sei o que acontece, mas toda vez que a gente fala de cirurgias, isso impacta muito," afirma Gasel.

Para o especialista, por outro lado, o seguro de vida para jovens e seu tipo de cobertura envolvem outras questões. Não apenas a idade. A conversa vai muito além disso e se relaciona principalmente com o tipo de renda.

"Eu acredito que não seja nem a questão do público jovem, mas do público que está gerando receita de fato. Acredito que 60% da população brasileira, ou até um pouco mais, é profissional liberal, autônomo, empreendedor informal. Aquele que já tem um patrimônio grande, que já tem uma família construída, que já entende que é necessário [ter um seguro], muitas vezes já até tem. Mas esse crescimento, eu diria que, é por conta das pessoas que estão de fato gerando receita. Dos que estão atuando ali na fase produtiva do ciclo de vida", avalia Gasel.

Uma jovem mulher acidentada, com tala no pescoço e no braço, se apresetando no trabalho, representando a importância do seguro de vida para jovens em momentos de acidentes imprevisto. Crédito: Andrey_Popov/Shutterstock

Uma nova linguagem para conquistar a Geração Z

Esse é um cenário em que os gatilhos tradicionais de venda perdem força. Com isso, o setor de seguros também precisa repensar como se comunica com esse público. Jovens pesquisam, comparam e abandonam o processo de contratação diante da primeira burocracia. Simplificar linguagem e jornada de compra se tornou condição para conquistar essa geração.

Para Victor Hugo, que aos 24 anos trocou o sonho de jogar futebol profissionalmente por uma carreira como corretor depois de uma lesão na coluna, o maior desafio hoje é vencer a resistência de uma geração que ainda enxerga o seguro de vida apenas como cobertura por morte.

"As pessoas não estão tão preocupadas, pelo menos da minha idade, em casar tão cedo nem em formar filhos. As coisas estão mais difíceis hoje, e por isso elas não veem o seguro de vida como prioridade. O que é mais comercializado hoje são os produtos em vida: uma doença grave, uma perda temporária de trabalho. Isso pesa muito mais, porque a gente busca construir patrimônio", relata Victor Hugo.

"Ao invés de a gente perguntar o que aconteceria com a sua família caso você faltasse, a gente muda um pouco o cenário: o que aconteceria com a sua estrutura, com o seu patrimônio, se você ficasse temporariamente inválido ou, por alguma doença grave, não conseguisse mais botar energia naquilo que você está construindo?"

Um fluxo natural para um cenário de mudanças

Para ele, porém, esse movimento não deve ser lido como uma ruptura. É, por outro lado, uma consequência de uma vida adulta que começa mais tarde. "Eu acho que a gente não está falando de uma tendência estrutural. É uma tendência natural, porque hoje as pessoas casam mais tarde, têm menos filhos", pondera.

"A preocupação com coberturas em morte vem sendo deixada de lado na fase mais inicial da vida, justamente porque as pessoas estão casando e tendo filhos mais tarde. Então aumenta a preocupação com as coisas em vida, principalmente doenças graves e invalidez temporária."

Seguro de vida para jovens e o conceito de Longevidade Financeira

Quanto maior a expectativa de vida e o tempo de permanência no mercado de trabalho, mais cedo o planejamento financeiro precisa considerar a proteção da trajetória profissional. Esse também é um princípio por trás do conceito de Longevidade Financeira.

Proteger a capacidade de gerar renda desde os primeiros anos da vida adulta passa a ser parte dessa lógica, tanto quanto formar patrimônio ao longo do tempo.

"Hoje eu sou uma pessoa que tem uma educação financeira e uma consciência muito maior. Eu penso nos meus investimentos para, no futuro, poder viver de renda passiva. Só que qual seria o sentido de fazer todo esse planejamento financeiro, tanto para o meu futuro quanto sucessório, se eu não faço uma proteção relacionada à minha saúde, à minha capacidade de gerar renda? Porque se alguma coisa acontecer comigo, eu vou ter que utilizar desses investimentos, e todo o planejamento que venho fazendo pode ir por água abaixo", avalia Victor Hugo.

Essa consciência, segundo ele, nasce de uma inversão de prioridade em relação às gerações anteriores. Algo que pode movimentar o cenário de seguro de vida para jovens.

"Quando a gente é jovem, a nossa maior preocupação não é o dinheiro que a gente acumulou. Pessoalmente falando, a minha preocupação hoje é comprometer a minha capacidade de guardar esse dinheiro, justamente para no futuro eu poder estar gerando renda passiva, caso eu não queira mais trabalhar."

Antes de entrar na área, ele conta que tinha uma ideia enraizada de que o seguro de vida servia só para a morte. Hoje, diz enxergar o produto como uma ferramenta de proteção financeira para construir patrimônio com mais tranquilidade.


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